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DOCUMENTÁRIO EM DOIS MOMENTOS:

As Poéticas de Renato Barbieri, Luis Valdovino e Dan Boord

 

Sônia Rosely BACHA

Graduada em Artes Visuais - UFMS  

Pós – graduada em Imagem e Som – UFMS

Professora convidada do Curso de Especialização – Arte e as Novas Tecnologias EAD/UFMS

Videasta, Documentarista e Diretora da SB Vídeo Produtora – Charin & Barbiesr

 

Anamorfose Catrópica – Baudemone ou Gaudemont (atr.), 2ª metade do séc. XVIII

(A Magia da Imagem – A Arqueologia do Cinema através das Coleções do Museu Nacional do Cinema de Turim)

 

 

INTRODUÇÃO

Este diálogo com as poéticas do documentário teve origem no desejo de desenvolver uma reflexão sobre determinados pontos em que a leitura da realidade – por meio das linguagens do cinema e do vídeo – torna-se singular na perspectiva de um determinado sujeito e numa determinada cultura. Para tanto, duas estratégias foram consideradas: uma denotando uma perspectiva cognitiva, outra, uma perspectiva mais intuitiva e experimental.

A perspectiva cognitiva assume uma visão planejada e presume uma abordagem naturalista da realidade. Aponta o documentário como registro de um mundo externo aos seus autores. Por sua vez, a perspectiva mais intuitiva e experimental aceita com mais facilidade a influência das interferências autorais e do acaso no documentário, que mesmo assim deve ser constituído como um relato da realidade.

A consideração inicial que fazemos é a seguinte: a postura cognitiva e naturalista não seria também uma opção autoral? Ou seja, não seria por si só mais uma possibilidade de expressão estética?

Desse primeiro questionamento decorre outro, que diz respeito ao conceito de autor na produção de cinema e vídeo: como a parceria acontece na realização do documentário? Isso será assinalado no relato sobre o trabalho da dupla de documentaristas Luis Valdovino e Dan Boord. Há ainda um questionamento que precede esse último e diz respeito à possibilidade de um documentário se constituir numa obra autoral: é possível afirmar que seja uma obra de autor, mesmo sendo realizado por uma grande equipe e estando comprometido com a realidade?

A hipótese que norteia este trabalho considera o documentário como possibilidade de revelar algo sobre a realidade – que surge da relação entre autor (ou autores) e mundo – e não apenas como forma de expor os fenômenos naturais ou sociais. 

Essas interrogações, apoiadas na hipótese apresentada, definiram as perspectivas do estudo, somadas à experiência que obtivemos em nossa própria atividade como vídeo-documentarista, e com as possibilidades de troca de conhecimento através de diálogos, via internet, durante o período em que participamos do processo de reflexão sobre as estratégias de interlocução entre autoria e realidade, na Coordenadoria de Educação à Distância da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Durante esse período realizamos a mostra Olhares Videográficos (2001), quando pudemos identificar e conhecer vários estilos e tendências da produção documental cinematográfica e videográfica atual.  Na ocasião, assistimos a Na Rota dos Orixás (1998) e Standards (2000).

A opção pelo estudo desses documentários não se deu de imediato, sendo tomada processualmente a partir de sensações e sentimentos não objetivos, movidos pela empatia e pela identificação. Isso despertou nosso interesse em estabelecer paralelos entre uma perspectiva mais cognitiva e realista e outra mais experimental e simbólica, definindo assim duas tendências estéticas. Essas definições decorrem da observação e análise dos documentários e de entrevistas com seus diretores.

Vale ressaltar que o fato de Mato Grosso do Sul se situar na periferia dos centros produtores e pensantes das linguagens audiovisuais estimulou o uso da internet para estabelecer linhas de comunicação. “Navegar” foi preciso, e essa navegação, além do contato interativo com os diretores, trouxe também muita informação a respeito dos temas estudados.

Optamos por realizar uma leitura não dogmática dessas poéticas para poder observar e relatar visões diferenciadas do fazer documentário.  

O primeiro capítulo, Pontes Imaginárias: A poética de Renato Barbieri, privilegia o estudo do documentário Na Rota dos Orixás, que discorre sobre as relações culturais entre comunidades negras do Brasil e da África, embasando essa temática na reflexão sobre Mito e Realidade. O estudo desse documentário possibilitou ainda considerações sobre a interação do cinema brasileiro dos anos 90 e a estética dos documentaristas brasileiros da geração de 80. 

O segundo capítulo, O Surrealismo de Todo Dia: A poética de Luis Valdovino e Dan Boord, apresenta um estudo do documentário Standards, assinalando seu experimentalismo conceitual na leitura da realidade, além de avaliar a possibilidade autoral em parcerias e de refletir sobre o sentido do tempo cotidiano como uma necessidade da modernidade (assim como o cinema o é).

O terceiro capítulo, Paralelos Ressonantes, discute o caráter revelador das poéticas – especificamente no documentário, a partir de um enfoque teórico do real na imagem processada pela máquina, e da autoria.

 

 

CAPÍTULO I

 

PONTES IMAGINÁRIAS: A POÉTICA DE RENATO BARBIERI

 

Mãe, que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d'água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. 'Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade?...

Guimarães Rosa – Trecho de Campo Geral

 

Renato Barbieri é cineasta, documentarista, iniciou sua carreira no início da década de 80, e sua filmografia[1] documental inclui entre outras as realizações:

Quilombos do Brasil, 58 min. (2002); Na Corda do Círio, 42 min, (2001-2002); A Invenção de Brasília, 55 min (2001); Malagrida, 73 min. (2001); Atlântico Negro ­ Na Rota dos Orixás, 54 min. (1998); Reservas Extrativistas, 30 min. (1997); Moçambique, 40 min.,1996; Monteiro Lobato, vírgula, ponto e vírgula, 22 min.(1996); São João no Matutú (com Carlos Ebert), 20 min. (1995); Rudimentos, documentário, 37 min. (1993); N’PeleVídeo, 14min. (1992); Vanguarda Internacional, 50 min. (1989); Expiação, 8 min. (1989); Duvídeo, 8 min. (1987); Do Outro Lado da sua Casa,  19 min. (1985).

Sua poética assinala a hipótese que queremos validar neste texto, por meio de evidências indicativas de que o tratamento formal ou estético que é dado à realidade – matéria prima do gênero documentário – interfere em sua mensagem, mesmo se tratando de uma narrativa aparentemente mais próxima à cognição do que puramente à percepção.

Em abril de 2002 iniciamos um diálogo com Renato Barbieri, via internet, a respeito das possibilidades narrativas do documentário, especificamente sobre o “documentário experimental”.  Sobre o tema, Barbieri assinala que a questão do documentário experimental foi de suma importância para ele nos anos 80, período em que fazia parte da produtora independente Olhar Eletrônico, onde realizou os documentários Do Outro Lado da Sua Casa (1985), Duvideo (1989) e Expiação (1989). Os dois últimos chamados por ele de vídeo-arte-documentários. De acordo com suas palavras, essa experiência radical em experimentar narrativas teve seu ápice com as realizações do N’Pele Vídeo (1992) e Rudimentos (1993). Barbieri reafirma a continuidade de suas pesquisas ao comentar que:

 

“...a busca narrativa continua a ser e sempre será um grande desafio para o documentário. O importante para mim hoje é se o documentário é bom ou não. E nisso implica se o documentário defende com vigor suas teses e se estas estão de fato ancoradas no real. O fato de um documentário ter uma narrativa mais clássica ou mais moderna não é um fator determinante da sua qualidade.”

 

Na Rota dos Orixás[2] é um documentário produzido em 1998, e será o objeto de estudo privilegiado neste capítulo, sendo destacado do conjunto de sua obra por mostrar-se apropriado à reflexão aqui proposta. História, cultura, religiosidade popular brasileira são temas recorrentes deste documentarista.

A obra em questão é um documentário com significativo valor etnográfico, e chamou nossa atenção pelo fato de possuir um caráter poético e experimental,[3] mesmo sem uma busca conceitual explícita na definição de planos e estratégias de montagem, como veremos no decorrer deste capítulo.

A forma – aliada a um discurso desprovido de qualquer sentido redutor ou hierárquico – apresenta ao público uma variedade de relações entre signos culturais e seus usuários, as quais são expressas nos depoimentos, na riqueza da religiosidade de brasileiros e africanos separados pelo Atlântico, onde o próprio mar e a mística de Iemanjá, assumem na dimensão cultural o papel de elementos de comunicação entre os povos do Brasil e da África.

 O diretor se coloca como mais um personagem entre muitos outros que criaram e atravessaram uma “ponte imaginária”, construída ao longo do tempo pelas relações míticas, artísticas, históricas e culturais.

Nesse sentido, ao invés de representar uma separação, o mar surge como elo entre essas comunidades de africanos e afro-brasileiros que compartilham hábitos e crenças comuns.

A obra que escolhemos para pontuar a produção documentária de Barbieri é, portanto, um documentário sobre culturas negras de origem africana comum, mas que se desenvolveram separadas por um oceano e, mesmo assim, mantiveram suas raízes, de modo que ainda hoje apresentam aspectos semelhantes, não só em sua formação, mas também em seu desenvolvimento.

Isso é evidenciado pelo olhar impresso na composição visual de Barbieri, seus planos e sua composição, o que nos leva a perceber mais semelhanças do que diferenças entre as comunidades, indicando ainda o mar como sentido de união e não como elemento de degredo. Talvez o mar seja o grande manto de Iemanjá, abrigando o desenvolvimento de duas culturas irmãs. Esse simbolismo é apenas insinuado, pela percepção de que o mar de Barbieri, neste documentário, mais une que separa. A mesma imagem do mar, ao ser registrada por outro autor, poderia revelar-se como uma barreira intransponível para a identificação cultural.

 

1.1     Uma estética de elaboração experimental

A produção documentária de Renato Barbieri está, em sua gênese, ligada à origem do uso do suporte eletrônico como objeto de invenção estética.

Compreender a sutil diferença de abordagem do documentário Na Rota dos Orixás em relação a documentários com uma narrativa clássica, passa pela compreensão das vertentes e desafios dos grupos brasileiros de produção de vídeos independentes e/ou experimentais na década de 80, incluindo também os caminhos do cinema brasileiro nos anos 90 e as ligações entre Mito e Realidade.

Arlindo Machado, em seu livro Máquina e Imaginário (1993), dedica um capítulo – A experiência do vídeo no Brasil – ao papel fundamental da experimentação audiovisual no suporte eletrônico, não só com relação à técnica, mas considerando inclusive a abordagem temática, e contribuindo igualmente na indicação de um caminho possível para um diálogo ético sobre o contexto das relações étnicas e sociais.

Isso destaca a preocupação em compreender a realidade do outro. A respeito da visão do estrangeiro sobre os povos colonizados, Machado (ibid.:262) denuncia a ênfase dada ao exotismo, que determinou nesse “outro” que é o colonizado uma auto-imagem comprometida com esse ponto de vista externo, também imposto por nós, sobre outros povos em situação semelhante.

 

“Os brasileiros foram, durante muito tempo, retratados como objetos exóticos de um olhar voyeurista, atribuído internamente ao paternalismo da estética populista e, no plano externo, a uma certa mentalidade colonialista às avessas, corroída pelo sentimento de culpa”. 

 

O autor faz uma comparação entre duas propostas diferentes dentro de uma mesma geração de videomakers, considerando a perspectiva de diálogo entre o sujeito enunciador e o objeto, na busca de dizer menos a verdade sobre o outro do que deixá-lo revelar-se, distinguindo para isso duas narrativas que demarcam esse conflito: uma a do vídeo documentário Caipira In, do trio Roberto Sandoval, Tadeu Jungle e Walter Silveira, realizado na produtora paulista de vídeo independente TV Tudo (TVDO). Para Machado (ibid.: 265), essa obra é “menos um documentário sobre uma festa folclórica do que uma reflexão sobre a distância entre duas culturas irreconciliáveis, ou mais exatamente uma demonstração da nossa impossibilidade de vivenciar a experiência do outro enquanto tal”.

A outra estratégia – que demarca uma aproximação com a experiência do outro, “buscando não mais a separação radical, mas uma ‘negociação’, uma troca, a possibilidade talvez de um diálogo, um exercício de polifonia que permita restituir a multiplicidade de vozes” – está no documentário Do Outro Lado da sua Casa, dirigido pelo trio Marcelo Machado, Renato Barbieri e Paulo Morelli, e realizado pela produtora de vídeo independente Olhar Eletrônico. Esse vídeo foi considerado por Arlindo Machado (ibid.: 266) uma obra exemplar, em que os realizadores:

 

“...enfocam o universo cotidiano de um grupo de mendigos que vivem mais ou menos à margem da sociedade. Não há aqui, entretanto, mais nada daquele sentimento de comiseração ou de culpa que marca uma certa maneira cristã ou católica de se encarar as populações humildes. Pelo contrário, à medida que o vídeo evolui, os indigentes começam a impor o seu próprio discurso e a colocar com autonomia a singularidade de sua visão de mundo.”

                

Esse olhar essencial e afirmativo em relação ao outro – em que o objeto participa como sujeito na invenção da obra – continuará presente como uma impressão caligráfica na obra documental de Renato Barbieri.

 

1.2 A recordação é para aqueles que esquecem (Plotino, 500 a.C.)

A frase acima foi citada por Mircea Eliade (1972:107), no capítulo Mitologia da Memória e Esquecimento, de seu livro Mito e Realidade. Podemos relacionar a passagem em que Eliade nos fala sobre a deusa grega Mnemósine – a personificação da Memória, mãe das Musas e onisciente, pois ela sabe “tudo que foi, tudo que é, tudo que será”, e “quando o poeta é possuído pelas Musas, ele sorve diretamente da ciência de Mnémosine, isto é sobretudo do conhecimento das origens, dos primórdios, das genealogias” – ao depoimento dado pelo Poeta no documentário Na Rota dos Orixás, quando diz a respeito da árvore do esquecimento que os negros escravizados tinham que cumprir o rito de a rodear a fim de esquecer suas raízes africanas, o seguinte:

 

“Neste lugar se encontrava a árvore do esquecimento. Os escravos homens deviam dar nove voltas em torno dela. As mulheres sete voltas. Depois disso supunha-se que os escravos perdiam a memória e esqueciam completamente seu passado, suas origens e sua identidade cultural, para se tornarem seres sem nenhuma vontade de reagir ou de se rebelar. Que aberração! Que contradição! Na história humana alguém jamais viu um nagô esquecer suas origens e sua identidade cultural, se ela está tão marcada em seu rosto e tão incrustada em seu coração?”

 

A frase de Plotino resume também a percepção que temos da intenção do autor do documentário Na Rota dos Orixás, em cultivar um espírito que brasileiros e africanos partilham culturalmente, propiciando um encontro, revelando similitudes e continuidade, e não simplesmente uma recordação de um passado histórico trágico, longínquo ou esquecido.

Durante nossa entrevista com Renato Barbieri, indagamos sobre o caráter educativo deste documentário e obtivemos a seguinte resposta:

 

“Todo documentário é, em princípio, educativo. Não quer dizer que deva necessariamente ser didático. Acho que o filme tem um caráter educativo forte, principalmente para o público brasileiro afro-descendente. Não estou certo quanto ao traço didático, pois o filme tem liberdades poéticas. Existe sim o desejo de atingir o público, sem fazer qualquer concessão à banalização ou à superficialidade.”

 

Como já foi dito, a busca de diálogo com o outro é substancial na poética de Renato Barbieri. Busca que, no documentário Na Rota dos Orixás, possibilita o diálogo não apenas com o outro, mas também com a história e com o sobrenatural ou místico, onde a memória emerge e aproxima o Benin, na África, do Maranhão e da Bahia, no Brasil.

Para Mircea Eliade  (1972:23), “o Mito quando estudado ao vivo, não é explicação destinada a satisfazer uma curiosidade científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva, que satisfaz a profundas necessidades religiosas, aspirações morais, a pressões e a imperativos de ordem social, e mesmo a exigências práticas”. Na opinião do autor, o mito é “um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente; não é absolutamente uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática”.

Também é possível relacionar as “liberdades poéticas” de Barbieri – tanto no documentário Na Rota dos Orixás (1998) quanto em outro documentário, Malagrida (1999), com a abordagem que Lúcia Nagib faz no ensaio Imagens do Mar: visões do paraíso no cinema brasileiro atual (2001), sobre o cinema brasileiro na década de 90. Deste ensaio, apresentado no XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação (2001) destacamos o seguinte trecho: “sintomaticamente, nesse momento de ‘redescobrimento’, a imagem metafórica do mar volta com poder total. Freqüentemente, esse mar está ligado ao sertão, com referências implícitas ou explícitas ao ‘sertão-mar’ glauberiano”.

A relação entre mar e sertão é aqui assinalada para demarcar um tipo de narrativa que integra a história, não apenas por seus fatos, mas também e principalmente pela mítica criada em torno do processo histórico, cuja variedade determina em grande parte a riqueza cultural de um povo. A imagem do mar como metáfora faz parte da história cinematográfica brasileira, que tem sua genealogia no cinema de Glauber Rocha que, por sua vez, tem como importante referencial o cineasta Humberto Mauro, considerado o patrono do cinema novo.

Essa relação é importante, também porque o cinema glauberiano, “promove a aproximação das crenças da origem e do fim do mundo da própria história do Brasil” (Nagib, 2001:4), interpondo entre o mito e a história muitos pontos de interação, que encontram no mar sua máxima expressão sintética.

Lúcia Nagib nos diz ainda que Glauber agia em outro momento da história brasileira, quando a discussão política a respeito de um projeto nacional era central, contexto muito diferente do que é abordado em seu texto: a década de 90. Para a autora – que neste ensaio se detém às produções brasileiras ficcionais – a imagem de mar apresentada nos filmes de Glauber “marcou de tal maneira o imaginário brasileiro, que quando os cineastas, a partir de meados dos anos 90, voltam a pensar o Brasil, é a elas que imediatamente recorrem”. Estas recorrências podem ser observadas também na produção documental em questão.

Em Na Rota dos Orixás, o mar é síntese, é “coisa”: aquilo que subsiste independente da representação. Neste documentário, o mar é um mar inteiro, denso, sem horizonte, o “Atlântico Negro” que unifica Brasil e África.

No documentário Malagrida (1999), sobre a vida e obra do jesuíta italiano Gabriel Malagrida, que viveu muitos anos no nordeste do Brasil e foi vítima da inquisição em Portugal, o mar também é utilizado como metáfora. Mas aí o mar é outro: um mar limite, que divide e separa, mas que também acolhe o coração em “chamas” de Malagrida.

Tanto em um como no outro, as imagens de mar são imagens carregadas de “poder sagrado”, e nos remetem ao mito cosmogônico, assim como a repetição de cânticos rituais dos terreiros brasileiros e beninenses em Na Rota dos Orixás e o de romeiros em Malagrida, que sob a lente da fé aliada à cultura popular, assumem nessa poética o poder ritual de criação. Tais ritos são para Mircea Eliade (1972:34) um recurso dos homens das sociedades tradicionais, pois estes:

 

“...sentem a unidade fundamental de todas as espécies de ‘obras’ ou de ‘formas’, sejam elas de ordem biológica, psicológica ou histórica. As situações negativas e desesperadas, aparentemente irremediáveis, são invertidas pela recitação do mito cosmogônico (...) A cosmogonia é o modelo exemplar de todos os tipos de ‘atos’: não só porque o Cosmo é o arquétipo ideal de toda situação criadora e de toda criação – mas também por que o Cosmo é uma obra divina, sendo, portanto, santificado em sua própria estrutura.” 

 

A poética de Renato Barbieri, com uma mentalidade brasileira, se dá no diálogo e na relação de troca de uma interlocução documental, na qual o objeto é também sujeito, e na imagética que evoca os elementos míticos de origem. Há também um cuidado primoroso com a palavra que narra a idéia, a tese. O ângulo dado pelo autor/diretor em nenhum momento reduz a realidade documentada ao plano bidirecional: a palavra desenha a profundidade do horizonte.

 

 

CAPÍTULO II

 

O SURREALISMO DE TODO DIA: A POÉTICA DE LUIS VALDOVINO E DAN BOORD

 

Na inumerável penumbra, o desconhecido pensar-se-á na sua cidade e o surpreenderá sair noutra, de outra língua e de outro céu...

Jorge Luis Borges – Trecho de O Forasteiro

           

Luis Valdovino é argentino, professor associado de vídeo arte na University of Colorado (EUA).  Dan Boord é norte americano e professor associado de vídeo arte na Ohio State University (EUA). Em 12 anos de parceria, produziram entre outros, os seguintes vídeos documentários:

Two or Three Things I Know About Ohio, 2:16 min. (2002); Día de Los Muertos (The Last of the 20th Century), 1:32 min. (2000); Standards, 25:57 min. (2000); A Refutation of Time, 8:16 min. (1997); Patagonia, 28:30 min. (1996); Another World of Dance, 9:05 min. (1994); Una Historia/A History, 30:00 min. (1992); Work in Progress, 14:00 min. (1990-92); Tierra Nueva, 20:00 min. (1991);  Truco, 11:50 min. (1990); The World of Dance, 8:44 min. (1990); Large Midwestern Institute, 2:00 min. (1990);  The Video Letter, 18:00 min. (1990). 

 

“O cinema parece ter sido inventado para expressar a vida do sub-consciente, as raízes do qual penetram a poesia tão profundamente.”

 

A citação acima, de Buñuel, foi feita por Valdovino numa entrevista via internet, em fevereiro de 2002, para considerar que “o símile poético tem uma aplicação direta ao vídeo. Este senso poético nos permite agregar os sentimentos e tons de vários sujeitos desesperados que ocupam o mesmo espaço cultural”.

A poética que emerge dessa parceria nos fornece mais elementos a respeito das possibilidades narrativas e autorais no documentário.

O documentário Standards é definido pelos autores/diretores não como um trabalho objetivo, feito para televisão; seu principal objetivo não é didático ou jornalístico, mas sim artístico e conceitual.

Valdovino justifica sua posição a respeito do trabalho em parceria, deixando claro com quais linhas do pensamento teórico eles dialogam e qual o seu pensamento com relação à "teoria do autor" francesa.

 

“Tanto por razões práticas quanto filosóficas, escolhemos trabalhar em parceria. Este processo é, em certo sentido, um desafio à crítica e à formação da auto-imagem. Esta tem sido a principal força ideológica por trás da maior parte da mídia independente. A produção de nossos trabalhos não é resultado de uma inspiração artística individual, mas da imaginação coletiva.”

 

A teoria do autor foi divulgada nos Estados Unidos em 1962, pelo crítico Andrew Sarris, baseado na politique des auteurs, uma proposta de crítica cinematográfica lançada na primeira metade dos anos 50 na revista francesa Cahies du Cinéma, pelos então jovens críticos e cineastas Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Jacques Doniol-Valcroze.

Jean-Claude Bernadet, em seu livro O Autor no Cinema (1994), observa que “a política é a apologia do sujeito que se expressa” (ibid.: 23). Afirma que essa concepção nega totalmente uma outra que entende o cinema como uma arte coletiva, de equipe.

Valdovino e Dan Boord trabalham em cooperação desde o nascimento da idéia do documentário até o término do trabalho. Na entrevista Valdovino cita algumas parcerias que foram fundamentais para o desenvolvimento das artes, como os cubistas Picasso e Braque, os surrealistas Dali e Buñuel e o desempenho trans-cultural de Coco Fusco e Guilhermo Gómez Peña, e relaciona esta perspectiva de cooperação com um modelo encontrado também na ciência.

 

“Eu acredito que uma pessoa ainda possa ter uma marca pessoal em um trabalho em cooperação, ao mesmo tempo em que cria novas formas de expressão que não são possíveis em um ponto de vista artístico singular. Em um contexto mais amplo da Teoria da Arte e Crítica Contemporânea, a cooperação desempenha um importante papel ao criticar as idéias modernistas de autoria e criatividade.”

 

A obra a que iremos nos ater neste capítulo é o documentário Standards[4] (2000), denominado pelos diretores/autores como sendo uma abordagem conceitual da realidade (definição com a qual concordamos).

Em Standards, que literalmente significa o padrão médio, mas que pode ser lida como instantes padrão do comportamento da “media”, é um documentário no qual os autores/diretores expõem de forma fantástica, crítica e irônica, a tendência atual  e americanizada da vida com um sentido de quantificação e estatística. O documentário é composto por uma série de cenas que demarcam um comportamento cotidiano padrão em várias partes do mundo.  Instantes como atravessar a rua, tirar uma foto, visitar um museu, festas, casamento e formatura, em que, mãos em primeiro plano, seguram gravador, batata frita ou milho para pombos, nos remetem para essa construção do tempo diário. Nesta poética o objeto em questão é a ação habitual do outro, que vai sendo descrita em pequenos capítulos: a lógica da vida, eu gosto de viajar, um milhão de automóveis...

Não há entrevistas. O texto em off nos conduz a uma série de imagens do cotidiano, pontuadas por imagens descomprometidas entre si, e de várias partes do mundo, no final do século XX. Um letreiro com as seguintes palavras inicia o documentário:

 

“Aunque en los Estados Unidos no se pueden poner de acuerdo en establecer el sistema métrico la mayoría del mundo sabe la diferencia entre las papas fritas chicas y grandes.”

 

Em seguida, o off reafirma que o vemos em imagens: posto de gasolina, preço da gasolina, mãos segurando batatas do McDonald’s com um rio de em segundo plano.

Novamente em fundo preto, outro letreiro, e recebemos a informação:

 

“Un producto de la democracia fué la difusión popular sin precedente de las estatísticas y en el Siglo Veinte una nueva forma de consciencia numérica capturó la mente pública. La urna de votos y el censo eran solo dos de las formas norte americanas de preguntar. ¿Cuantas Hay? ¿Cuánto Cuesta? ¿Cómo es de Grande?”

 

Esse documentário, segundo o próprio Valdovino,  manifesta o interesse em  desenvolver experiências conceituais e de linguagens com imagens colhidas de fatos da  vida cotidiana, uma vez que:

 

“...as experiências do dia-a-dia assumem forma e característica que freqüentemente parecem extrapolar a aplicação da lógica. Certos aspectos de significado social e cultural parecem desafiar tentativas sistemáticas ou racionais de unificar essa experiência em algo compreensível. Esta situação é, para nós, como o quintal de nossa casa, o lugar onde moram nossas idéias poéticas e a essência de nossos vídeos. Nós tentamos encontrar uma forma de expressar, em vídeo, como é estar vivo neste momento e neste lugar.”

 

O cotidiano e o tempo são um tema recorrente na obra de Valdovino e Boord. Os autores/diretores prestam, no documentário Patagônia (1996), uma homenagem ao fotógrafo e cineasta suíço Robert Frank, um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos, que em 1955 viajou com o poeta Jack Kerouak  durante dois anos pelos os Estados Unidos, fotografando cenas do cotidiano.

Dessa viagem resultou a publicação The Americans, em 1958. Um marco de rompimento com a fotografia documental tradicional, por imprimir na imagem o caráter subjetivo do real.

Esta homenagem, para Valdovino, busca reparar um débito que acredita ter com Robert Frank, por sua abordagem poética e irônica da fotografia documental. Segundo a sua percepção, grande parte do mundo de Frank já desapareceu; não apenas os edifícios, ruas, carros, piscinas e pessoas, mas também a crença filosófica na fotografia, pois a opacidade do mundo atual não é facilmente revelada pela fotografia.  Para ele, o que ocorre hoje é uma América muito menos homogênea do que a explorada por Frank quatro décadas atrás, que transpõe a ficção e o fato. Esse dilema deve ser desvelado e expresso no uso deliberado da mistura de estilos.

Em A Refutation of Time (Uma Refutação do Tempo, 1997), a parceria explorou a estranha viagem de Jorge Luis Borges a Oklahoma, e atualizou sua teoria do tempo com explorações na internet. Eles alcançaram este objetivo através da presunção de um viajante fictício na rede mundial, onde a informação se materializa. Este vídeo apresenta imagens do cantor de tango Carlos Gardel e do humorista Will Rogers.

No documentário Standards não há uma interlocução com o ponto de vista do sujeito da cena; vai-se percorrendo o cotidiano no Colorado, Argentina, México, Holanda e Chile. Singelo, crítica e ironicamente, vai revelando aspectos líricos do dia a dia, como pessoas em trânsito, mãos que brincam com um lápis, a simetria de uma rua, o fenômeno chupa-cabra, seres extra-terrestres, e assim por diante. Momentos desconectados entre si, em que a fotografia – considerando o enquadramento e o movimento de câmera quase postal – reafirma o sentido do instante. A narração em  off, marcada por sub-títulos, possibilita uma certa unidade no confronto de referenciais.

Os confrontos de planos e imagens híbridas são utilizados segundo Valdovino, “como forma de investigar as forças que moldam a experiência de certos grupos em uma sociedade”, e o diretor/autor cita o documentário Work in Progress (Trabalho em Andamento - 1992), como um exemplo da tendência narrativa adotada pela dupla.

Nesse documentário, o tema é o comportamento dos americanos com relação aos estrangeiros ilegais. Para desenvolvê-lo, os diretores utilizaram recursos de animação, a cobertura da mídia, as cantigas folclóricas e clips de filmes. O hibridismo demarca o trabalho da dupla Valdovino e Dan Boord.  Valdovino se diz fascinado pela colisão de várias manifestações de sentido e de poesia de sugestão, ao invés do controle rígido da informação didática. Ele justifica este fascínio em função da dificuldade de se expressar visualmente grande parte da vida cotidiana, tanto emocionalmente como analiticamente, porque:

 

“Aspectos significativos da vida cotidiana parecem invisíveis e irracionais, e, portanto, não se dão a conhecer. O caráter fragmentário e idiossincrático de nossa experiência é talvez mais claramente representado pelas redes de TV americanas, que têm sido caracterizadas como ‘Charles Dickens em LSD’. Informação é acumulada sobre mais informação com muito pouca (ou nenhuma) preocupação com o contexto ou o sentido.”

 

Esse tipo de associação, para Valdovino, contém um desenvolvido senso de ironia e os motiva a observar que a melhor ficção é criada no mundo da experiência e do cotidiano.

 

2.1 O tempo cotidiano: uma necessidade do mundo moderno

Em Standards, realizado em vídeo digital na passagem do século XX para o XXI, a intenção de Valdovino e Boord é buscar representações, “conexões líricas” do cotidiano. Este encantamento pela vida diária tem seu surgimento na modernidade. Margaret Cohen em seu ensaio A Literatura panorâmica e a invenção dos gêneros cotidianos, publicado no livro O cinema e a invenção da vida moderna (2001), nos traz uma relação ontológica, partindo da afirmação de que o cotidiano é “um fascínio cinematográfico demonstrado desde os primeiros curtas de Thomas Edison e dos irmãos Lumière”. Segundo a autora, “a gênese da modernidade caracteriza-se pela concepção do cotidiano como prática”.

Caracteriza-se, ainda, pelo reconhecimento da vida diária como um objeto válido de “investigação científica e de atenção representacional”.  Cohen escolhe como objeto central de sua análise as litografias impressas em livros e jornais, no período monárquico posterior à revolução francesa, a Monarquia de Julho[5] (França, 1830-48).

Para a autora, a formulação dedicada ao cotidiano durante a Monarquia de Julho desempenhou papel importante nos desdobramentos intelectuais do que veio a ser chamado de impacto do “mundo histórico”.

E faz uma citação de Henri Lefebvre (Lefebvre apud Cohen,. 2001:317): “...no século XIX, o eixo do pensamento foi redirecionado da especulação para o realismo prático empírico, tendo a obra de Karl Marx e as incipientes ciências sociais como marco”, complementando que foi nessa época que Auguste Comte inventou a sociologia e Adolphe Quetelet desenvolveu o conceito estatístico do homem médio. 

Margaret Cohen, quando se refere ao sentido lusco-fusco do texto panorâmico, da Paris do século XIX, nos traz algumas análises que são úteis na compreensão dos desafios dessa poética. A obra de Luis Valdovino e Dan Boord, apesar de distante das litografias do século XIX, no tempo e no espaço,  assemelha-se às gravuras de época pela variação proposta entre representação (imagem) e referente (mundo). Segundo a autora, no entendimento da literatura panorâmica[6], referindo-se especificamente ao Le Diable à Paris[7] (ibid.:326),

 

“...o leitor negocia com um amplo espectro, que vai desde a história mais direta e objetiva e a etnografia impressionista até cenários absolutamente fantásticos, descidas ao inferno, uma Paris onde criaturas sobrenaturais misturam-se aos espetáculos comuns da vida cotidiana.”

 

Essa “anarquia” na perspectiva de representação que busca uma visão total de aspectos do cotidiano, “não oferece a perspectiva segura da maestria objetiva, tal como proposta na introdução às suas pretensões panópticas”; ao invés disso, o texto panorâmico arrasta o leitor para o que Lukács chamou de “anarquia da meia-luz do cotidiano”. Para Lukács, esta intenção de leitura do cotidiano lança o leitor, tomando como exemplo as litografias panorâmicas, em um lusco-fusco epistemológico, “um estado em que o conhecimento objetivo, a experiência exteriormente verificável, ficções socialmente sancionadas e uma projeção individual fantasmática interagem de modo instável e desordenado”.

A mesma sensação de lusco-fusco se dá na apreensão da realidade apresentada pelo documentário Standards, em sua abordagem panorâmica de um cotidiano culturalmente múltiplo e com uma imagética híbrida. Aqui reside sua poética.

 

 

CAPÍTULO III

 

PARALELOS RESSONANTES

 

Este terceiro momento procura evidenciar que a linguagem do documentário, além de possibilitar o registro e exposição de fenômenos naturais e sócio-culturais, também revela – ou permite que seja revelado – algo além da experiência imediata, em decorrência da sensibilidade do olhar dos sujeitos envolvidos na produção documentária. Isso caracteriza o caráter revelador das poéticas audiovisuais em seus diversos estilos.          

De um lado, está a idéia de uma isenção objetiva e mecânica, que desobstrui a lente da câmera de interferências pessoais e evita a contaminação da imagem na produção vídeo-documental. Isso caracteriza uma postura realista e objetiva, cuja base é a crença de que há uma realidade que antecede e deve prevalecer sobre a interpretação do sujeito. Neste caso, cabe aos sujeitos envolvidos na produção documental planejar e definir estratégias para não interferir na expressão do real.

A radicalização realista já viveu o seu momento de crítica e superação por parte de alguns teóricos que afirmam o caráter cultural da imagem. Segundo Arlindo Machado (1999), a fotografia necessita de uma construção cultural para existir como registro da realidade, impondo um conjunto de normas técnicas e de linguagens, para que a própria imagem e seu significado se constituam.

Isso pressupõe, portanto, construções “que são sempre e necessariamente intencionais, interpretativas e subjetivas” (ibid.: 01). Machado não nega de todo a possibilidade de acesso ao real pela fotografia, mas alerta que este acesso não se dá ingenuamente, sendo possível apenas por meio da construção de um discurso sobre o real.

Contra os defensores do realismo radical, em particular contra as teses defendidas e difundidas por André Bazin, nos anos 40 e 50, Machado (ibid.:01) considera uma “idéia esdrúxula” a defesa de “que a fotografia pertence não ao domínio da cultura, mas ao das ciências naturais, porque é a própria ‘realidade’ que se imprime a si mesmo na película”. Para o autor, essa idéia não suporta “sequer a mais elementar das verificações”.

Sobre as mesmas teses de Bazin, Dudley Andrew (1976:143), nos diz que, logicamente, Bazin não era ingênuo e também argumentava “que o homem criou essas invenções tecnológicas e trabalha com elas a fim de que a natureza penetre no celulóide, onde pode ser preservada e estudada”. Para Andrew (ibid.:70), Bazin acreditava em um sentido de mundo, e que o cinema, mais do que qualquer outra arte, é “naturalmente, capaz de sugerir e capturar o sentido de um mundo que flui ao redor e além de nós”.

De outro lado, portanto, a radicalização do caráter cultural da imagem, como foi assinalado por Machado (op. cit.), instaura a perspectiva relativista no âmbito da produção audiovisual e documentária. Esta segunda posição aposta tudo no olhar do sujeito construindo a realidade como representação da ação da consciência sobre o mundo.

Estamos diante de duas teorias com faces opostas sobre o fenômeno fotográfico/documental, que envolvem realismo versus relativismo. Nessa perspectiva, seria fácil e “econômico” dizer que os dois documentários, que são objetos de nossa investigação e análise, situam-se entre esses dois extremos da representação: o documentário como verdade versus o documentário como linguagem. Mas não é este o caso. Foi-se o tempo em que as polaridades davam conta da realidade.

 

3.1 Em síntese, duas poéticas contemporâneas

Apesar das diferenças que podemos assinalar nas obras e poéticas aqui estudadas, depreende-se deste estudo que captar imagens com uma câmera e se inserir nesta nossa realidade multifacetada, que interpõe natureza e símbolos, mostrando-se, paradoxalmente, simples e complexa, requer um exercício de sensibilidade na síntese de diferentes possibilidades estéticas e teóricas.

Nas poéticas de Barbieri e de Valdovino em parceria com Dan Boord são utilizados recursos de narração oral sobre o evento de imagens. No documentário Na Rota dos Orixás, a voz de um narrador oculto compõe um diálogo coerente com as vozes dos entrevistados.

Em dois momentos, o diretor propõe, no próprio ato de produção do documentário, ser um mensageiro entre a localidade de Uidá, na África, e a cidade de São Luís do Maranhão, no Brasil, levando uma mensagem gravada em vídeo de pai Euclides, um líder religioso do Maranhão, a Avidmanjé, um líder religioso em Uidá. Como retribuição, Avidmanjé oferece como presente um bastão cerimonial a Euclides, que também é entregue durante a produção do documentário. Nesse caso, fica evidente que a própria iniciativa de produzir um documentário não só registra, como também passa a constituir e produzir a realidade.

Por outro lado, a presença da câmera é o tempo todo muito sutil e poética. A sensibilidade é o fator mais acionado para captar a poesia do momento, evitando superpor um sentido à realidade e permitindo que a situação se revele numa condição que suscita a auto-expressão. As implicações históricas e etnográficas não se sobrepõem ao lirismo, e até mesmo as referências anteriores, que provavelmente indicaram a oportunidade do tema – como a referência ao fotógrafo, historiador e etnógrafo Pierre Verger – são sutilmente assinaladas, como aquele que acreditava ter encontrado a mãe do rei Gezo: a fundadora da casa das minas em São Luís do Maranhão, que possivelmente dá origem ao argumento do documentário. 

No documentário Standards, de Valdovino e Dan Boord, entretanto, há a formulação de um conceito que é anterior às imagens e que ordena o que, a princípio, nos parece desordenado. Apesar de aparentemente despretensiosa, a lente incide sobre a realidade tornando agudos os momentos banais. Assim, a desordem e a banalidade vão adquirindo um sentido revelador. Nesse contexto o acaso e a experimentação passam a compor um sentido de desordem, que denuncia que a vida não faz sentido pela métrica matemática e estatística, porque essa métrica é representação e a vida é uma outra coisa determinada mais pela qualidade do que pela quantidade. A vida é mais mítica do que métrica.

A concepção autoral está presente na fala do narrador que descreve primeiramente um conceito e não a realidade. Acontece na forma de um monólogo mais intimista com três vozes que mesclam alternadamente o feminino e o masculino, dispensando outros depoimentos.

Em nenhum dos casos, porém, o texto narrado assume um tom de neutralidade. Caracteriza-se, ao contrário, como um testemunho coeso do discurso composto pelo autor/diretor sobre seu tema.  

 

3.2        A questão autoral

Como marca da peculiaridade expressa pelo estilo de cada um dos diretores, a questão da autoria vai sendo evidenciada pelo modo específico como cada autor aborda e compõe tecnicamente o seu discurso sobre os dados da realidade.

Em O Autor no Cinema, Jean-Claude Bernadet (1994) traça um longo caminho cinematográfico e filosófico sobre a questão da autoria, que como vimos anteriormente, atingiu seu ápice nos anos 50 sob a égide da politique des auteurs. Assinala que “a morte do homem e também do autor” – anunciada por Foucault na conferência de 1969 da Sociedade Francesa de Filosofia – atingiu em cheio o autor cinematográfico, provocando uma série de reações, buscando salvar o conceito de autor.

Uma dessas reações partiu de Alain Bergala (apud Bernadet, ibid.:174), que reafirma o status de autor, mas considera que esta condição ainda não está definitivamente conquistada, pois se reconstrói a cada instante. Para Daniel Serceau (apud Bernadet, ibid.: 175), a obra esclarece o sujeito e não ao contrário; “sendo que um projeto de criação não corresponde necessariamente àquele que o sujeito tem consciência”. Já Jean-Louis Baudry (apud Bernadet, ibid.:175) sustenta a noção de autor a partir da idéia de que uma obra de arte “é analisável; um carro ou um dedal não o são. O cinema está neste cruzamento, mesclando um sujeito coletivo não-analisável com um sujeito individual analisável”.

Para Bernadet, todas essas tentativas de buscar o autor revelam um pouco mais do que o mal-estar causado pela repercussão do anti-humanismo de Foucault.

O sentido de unidade como acesso à autoria, como proposto na politique des auteurs  – o autor como aquele que se repete, ou seja, sendo possível identificar seu “mito fundamental”, sua “metáfora obcecante” (ibid.:32) – foi questionado por Serge Daney[8]: “A unidade nunca foi se não um dos efeitos de uma castração; confirmar o cineasta na certeza de sua unidade implica em castrá-lo” (apud Bernadet, ibid.:177). Na concepção da política de autor francesa, sem unidade não há mais autor “mas com certeza um outro autor” (ibid.:178).    

A discussão sobre autoria apresenta ainda duas vertentes a serem consideradas: A que discute a presença do autor na obra enquanto revelação de sua personalidade de uma perspectiva mais próxima da psicanálise do que da crítica ou da comunicação (hipótese rejeitada pelo estruturalismo, onde a obra revela seu narrador, que não coincide necessariamente com o autor). A outra vertente assinala a questão do estilo, indicando a recorrência de certas características percebidas como autorais.

A idéia de um narrador constituído pelo próprio texto minimiza a discussão a respeito da múltipla autoria.  Tanto um autor quanto os múltiplos autores projetam a narrativa e seu narrador ou narradores. Do ponto de vista da análise da obra, sua unidade ou seu estilo são dados inerentes que não dizem respeito diretamente aos autores. O que chamamos de estilo autoral se manifesta na obra e não necessariamente no autor.

Mais relevante neste estudo é a noção de estilo poético, que, no caso do documentário, toca na questão da isenção do autor diante da realidade como vimos anteriormente. Nesse caso, prioriza-se a relação entre autor (es) e a realidade, e não entre autor (es) e a obra, pois o que está em jogo é como a obra revela a realidade e qual a realidade revelada por ela.

A poética de Barbieri nos traz uma perspectiva de autoria que pode ser denominada “autor-outro”. Parte da idéia de que o autor, além de sujeito, é também objeto de seu tema e da sua obra. O devir da produção audiovisual passa a reagir na execução do roteiro original, e a alterar o ponto de vista do sujeito/autor, que se mostra sensível aos apelos da realidade e do próprio fazer poético.

Apesar de um fazer mais experimental e desordenado, a poética de Valdovino e Dan Boord, reafirma paradoxalmente a perspectiva autoral, já que sua produção parte de um plano conceitual pré-determinado, síntese de dois sujeitos que realizam uma única narrativa. Neste caso, a obra e a própria realidade se manifestam como “objeto/metáfora”, porque sua matéria prima híbrida e não homogênea, adquire sentido na revelação simbólica de um conceito pré-determinado.

Os dois documentários resultam de contextos culturais distintos, uma vez que Barbieri é brasileiro, integrante da geração paulista de cine-vídeo dos anos 80, e Valdovino  um argentino que trabalha na Academia dos EUA, juntamente com o parceiro americano Dan Boord.  Apesar de constituírem poéticas muito diferentes, a afirmação da memória em Barbieri e os conflitos da dualidade entre símbolo e realidade em Valdovino e Dan Boord  indicam a importância da interação entre a realidade factual e as questões mítico-culturais como possibilidade de enunciar o que é estar vivo e presente neste nosso tempo.

 
 
BIBLIOGRAFIA

 

CINEMAIS: Revista de Cinema e Outras Questões Visuais. Poesia, dislexia, câmera na mão, câmera no chão. São Paulo: Cinemais, n.08, dez. 1997.

CINEMAIS: Revista de Cinema e Outras Questões Visuais. Arthur Omar: entre o exibicionismo de fotógrafo e o pânico sutil do cineasta. São Paulo: Cinemais, Número 10/abril, 1998.

GODOY, HÉLIO. Documentário, Realidade e Semiose. São Paulo: Annablume - Fapesp, , 2001.

NAGIB, LÚCIA E PARENTE, ANDRÉ (ORG.). Ozu o extraordinário cineasta do cotidiano. São Paulo: Marco Zero, , s/d.

OMAR, ARTHUR. A Lógica do Êxtase. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, , 2001.    

XAVIER, ISMAIL. O Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANDREW, J. Dudley. As Principais Teorias do Cinema: Uma Introdução.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.

BERNADET, Jean-Claude. O Autor no Cinema. São Paulo: Brasiliense: Edusp, 1994.

COHEN, Margareth. A literatura panorâmica e a invenção dos gêneros cotidianos. O Cinema e a Invenção da Vida Moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

ELIADE, Miecea.  Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972.

MACHADO, Arlindo. Máquina e o Imaginário: O desafio das poéticas tecnológicas.  São Paulo: Edusp, 1993.

MACHADO, Arlindo. Técnicas Fotográficas. São Paulo: Itaú Cultural, 1999.

NAGIB, Lúcia. Imagens do Mar Visões do Paraíso no Cinema Brasileiro Atual.. Campo Grande: INTERCOM, 2001.

 

 

ANEXOS

 

ANEXO 1: NA ROTA DOS ORIXÁS

 

Ficha Técnica:

Direção: Renato Barbieri

Pesquisa: Victor Leonardi

Roteiro: Victor Leonardi e Renato Barbieri

Direção de fotografia: Carlos André Zalasik

Montagem: Saulo Lamounier

Narração: João Acaibe

Direção de arte: Carmem Ferreira, Fabiano Maciel, Rui Amaral.

Trilha sonora: Kodiak Bachine

Áudio design: Ricardo Gonçalves

Produção Executiva: Renato Barbieri e Albina Ayala

Duração: 56 min

 

Sinopse:

Filmado no Maranhão, Bahia e Benin, o documentário faz uma viagem no espaço e no tempo em busca das origens africanas da cultura brasileira. Partindo das mais antigas tradições afro-brasileiras, o Candomblé e o Tambor de Mina, Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás transporta o espectador para a terra de origem dos orixás e voduns, Benim, onde estão às raízes da cultura jeje-nagô.

 

 

ANEXO 2: STANDARDS

 

Ficha Técnica:

Direção: Luís Valdovino e Dan Boord

Roteiro: Luís Valdovino e Dan Boord

Narração: Maria Elena Jorda-Langleldt / Margaret Shaller / Luis Valdovino

Duração: 25 min. 58 Seg.

 

Sinopse:

Os Estados Unidos passam uma régua de batatas fritas no planeta e controlam o tempo coordenado universal; a América Central se depara com o chupacabra. Enquanto isso, Yoko Ono visita Santiago - Chile. Momentos vividos em  vários lugares no final do Século XX.

 

 

ANEXO 3: FILMOGRAFIAS

 

1. FILMOGRAFIA RENATO BARBIERI

 

Terra de Quilombo – Espaços de Liberdade, documentário, 58 min. ­ Fundação Palmares / MinC / Videografia, 2002

Land for the Future, vídeo, 7 min. ­ MDA / Videografia, 2002

As Vidas de Maria, ficção longa-metragem 35MM (em montagem) ­ Asa Cinema e vídeo / Videografia, 2001-2002

Atlântico Negro ­ Ritmos do Inconsciente, documentário longa - metragem 35MM (em pesquisa) ­ Videografia, 2002

Na Corda do Círio, documentário (em finalização), 42 min. ­ TV Cultura e
Arte ­ MinC / Videografia, 2001-2002

Religiões Afro - Americanas e Diversidade Cultural, VT 30seg. ­ Fundação
Palmares / MinC / Videografia, 2001

A Invenção de Brasília, filme documentário, 55 min. ­ TV Cultura/
Videografia, 2001

O Saber e o Sabor, documentário educativo, 26 min. ­ TV Escola / UNESCO /
Videografia, 2001

Campanha da Fraternidade ­ 2001, campanha educativa ­ CNBB / Videografia,
2001

Malagrida, filme documentário longa-metragem 35MM, 73 min. ­ Videografia,
2001

A TV vista por quem a vê, curta-metragem, 5 min. ­ 50 Anos de TV E+,
OCA/Ibirapuera, 2000

Campanha da Fraternidade ­ 2000, campanha educativa ­ CNBB / Videografia, 2000

A Idade do Brasil, série de documentários para TV ­ TV Escola / TVE /UNICEF/ Videografia, 2000

O Destino de Nossas Florestas, documentário educativo, 26 min. ­ MMA / NUD / Videografia, 1999

Atlântico Negro ­ Na Rota dos Orixás, filme documentário 35MM, 54 min., Itaú Cultutal / Videografia, 1998

Reservas Extrativistas, documentário, 30 min. ­ MMA / PNUD / Videografia, 1997

Moçambique, documentário, 40 min. ­ TVE / Videografia, 1996

Monteiro Lobato, vírgula, ponto e vírgula, documentário, 22 min. ­ Itaú Cultural/ Videografia, 1996

Seleção Tropical, série de 5 documentários na Amazônia ­ MMA / PNUD/
Videografia, 1996

Viravolta, série ficção de educação ambiental - 5 Elementos / Videografia, 1995

São João no Matutú, documentário, 20 min. ­ Videografia, 1995

V Direitos das Futuras Gerações, campanha educativa, 20 min. ­ SESC/SP,1994

Rudimentos, documentário, 37 min. ­ TV Zero / Videografia, 1993

N’PeleVídeo, curta-metragem, 14min. ­ Videografia, 1992

Vanguarda Internacional, documentário, 50 minutos ­ Rede Bandeirantes, 1989

Global Fórum, documentário ­ Rede Bandeirantes, 1989

Expiação, curta-metragem, 8 min. ­ Olhar Eletrônico, 1989

88 em Perspectiva, documentário ­ TV Gazeta, 1988

Duvideo, curta-metragem, 8 min. ­ Olhar Eletrônico, 1987

Do outro lado da sua casa, documentário, 19 min. ­ Olhar Eletrônico, 1985

 

Televisão:

Rede Folha, programa diário ­ Folha de São Paulo / TV Cultura, 1990

Vitrine, programa semanal ­ TV Cultura, 1990

Fórum, programa semanal ­ TV Cultura, 1990

Jornal de Vanguarda, programa diário ­ Rede Bandeirantes, 1988/89

Quadro a Quadro, matérias especiais, semanal ­ TVE, 1987

O Mundo no Ar, matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / Rede Manchete, 1987

Fantástico matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / Rede Globo,1985/86

Os Repórteres, matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / TV Educativa, 1985

Olho Mágico, matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / Abril Vídeo, 1985

Crig-Rá, matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / Abril Vídeo, 1984

Antenas, matérias especiais, semanal ­ Olhar Eletrônico / TV Gazeta, 1983

 

2. FILMOGRAFIA LUIS VALDOVINO

 

Two or Three Things I Know About Ohio, 2:16 min. video, Dan Boord/Luis
Valdovino, 2002

Día de Los Muertos (The Last of the 20th Century), 1:32 min. video,
Dan Boord/Luis Valdovino, 2000

Standards, 25:57 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 2000

Eat Like a Winner, 8:18 min. video, Dan Boord/Greg Durbin/Luis Valdovino,
1998

A Refutation of Time, 8:16 min. video, Dan Boord/Greg Durbin/Luis
Valdovino, 1997

Patagonia, 28:30 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1996

 

Another World of Dance, 9:05 min. video, Dan Boord/Laura Hill/Marilyn Marloff/Luis Valdovino, 1994

Una Historia/A History, 30:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1992

Work in Progress, 14:00 min. video, Luis Valdovino,  1990-92

Tierra Nueva, 20:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1991

Truco, 11:50 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1990

The World of Dance, 8:44 min. video, Dan Boord/Laura Hill/Marilyn
Marloff/Luis Valdovino, 1990

Large Midwestern Institute, 2:00 min. video, Dan Boord/ Luis Valdovino, 1990

The Video Letter, 18:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1990

Argentina, 30:00 min. video, Luis Valdovino, 1988

Ni se Aflije ni se Afloje, 20:00 min. video, Luis Valdovino, 1988

Argentina, 1:00 min. video, Luis Valdovino, 1986

Pomo-Pressure, 3:00 min. video, Luis Valdovino, 1986

Undecition, 3:00 min. filme, Luis Valdovino, 1984-87

Spagetti, 3:00 min. filme, Luis Valdovino, 1984

 

 

3.  FILMOGRAFIA DAN BOORD

 

Two or Three Things I Know About Ohio, 2:16 min. video, Dan Boord/Luis
Valdovino, 2002

Día de Los Muertos (The Last of the 20th Century), 1:32 min. video,
Dan Boord/Luis Valdovino, 2000

Standards, 25:57 min. vídeo, Dan Boord/Luis Valdovino, 2000

Eat Like a Winner, 8:18 min. video, Dan Boord/Greg Durbin/Luis Valdovino,
1998

A Refutation of Time, 8:16 min. video, Dan Boord/Greg Durbin/Luis
Valdovino, 1997

Patagonia, 28:30 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1996

Another World of Dance, 9:05 min. video, Dan Boord/Laura Hill/Marilyn
Marloff/Luis Valdovino, 1994

Una Historia/A History, 30:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1992

Distant Relations, 15:00 min. video, Dan Boord/Greg Durbin, 1994

Tierra Nueva, 20:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1991

Truco, 11:50 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1990

The World of Dance, 8:44 min. video, Dan Boord/Laura Hill/Marilyn
Marloff/Luis Valdovino, 1990

Methods, 12:00 min. video, Dan Boord/Greg Durbin, 1990

Large Midwestern Institute, 2:00 min. video, Dan Boord/ Luis Valdovino, 1990

The Video Letter, 18:00 min. video, Dan Boord/Luis Valdovino, 1990

The Great Frontier, 28:00 min. video, Dan Boord/Greg Durbin, 1988

The Going Away Party, 30:00 min. video, Dan Boord/Greg Durbin, 1987

Democracy in America or Everyone is Welcome, 17:00 min. video, Dan
Boord/Greg Durbin, 1986

The Nature Theatre of Oklahoma, 35:00 min. video, Dan Boord, 1985

How Television Works, 17:00 min. video, Dan Boord, 1985

Epistemology, 12:00 min. video, Dan Boord, 1984

Wit and Its Relation to the Unconscious, 19:00 min. video, Dan Boord,
1980

Jean-Luc Goes Sea World, 8:00 min. video, Dan Boord, 1979

The Last Days of Immanuel Kant, 29:00 min. vídeo, Dan Boord, 1979

George IV, 17:00 min. video, Dan Boord/Paul Buscemi, 1979

The Birth of Tragedy, 39:00 min. vídeo, Dan Boord, 1978

Fourth of July, 21:00 min. video, Dan Boord/Paul Buscemi, 1978



[1] Filmografia completa em anexo.

[2] Ficha técnica em anexo

[3] Que se entrega a percepção do momento. 

[4] Ficha técnica em anexo

[5] Período em que a burguesia  passou a exercer dominação cultural, política e econômica na França. (Cohen, 2001:316) 

[6] Denominação dada por Walter Benjamin ao gênero da literatura efêmera inaugurada durante a Monarquia de Julho na França.

[7] “O Diabo em Paris” é um dos vários volumes da coleção de esquetes literárias e litográficas Le livre des cent-et-un, que descrevem a vida parisiense e seus hábitos (1845-46).

[8] crítico de cinema francês Serge Daney (1944-1992)

 

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