SETE LIÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DE
ADULTOS
Álvaro Vieira Pinto
São Paulo: Cortez/Autores
Associados, 2003
(118 p.) 13ª ed.
Preço - R$11,00
Doutoranda
em Educação pela UNESP de Marília
Docente da
Rede Municipal de Educação de São José do Rio Preto
Docente de
Política Educacional na UNIRP – Centro Universitário de Rio Preto
Email:
suelivia@ig.com.br
Álvaro de Oliveira Pinto (1909-1987) pode ser considerado um
intelectual que se caracteriza, praticamente pelo autodidatismo desenvolvido
sobre a base de uma sólida educação fundamental. Estudou medicina, filosofia e
dominava vários idiomas. Preocupava-se muito com a questão pedagógica,
desenvolvendo seu trabalho em condições adversas. Sua importância educacional
deve-se ao fato de ser testemunho vivo e atuante do trabalho desenvolvido, além
de ter influenciado a formação e o trabalho de outros intelectuais.
A obra, publicada originalmente em 1982, encontra-se
em sua 13ª edição e não apresenta alterações de conteúdo ou inserções de
comentários atualizados sobre os conceitos defendidos pelo autor à época;
apresenta pequenas modificações em sua estrutura impressa, excluindo-se letras
que antecediam itens, estes agora, transformados em parágrafos. Por sua
singularidade, originalidade e atualidade, pode constituir-se ponto de
referência para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à modalidade
de educação de jovens e adultos, também porque ratifica o pensamento do maior
educador brasileiro nesta área, o professor Paulo Freire, que insistiu na linha
da educação reflexiva, dialógica, o exercício contínuo da prática da
libertação.
O livro está divido em duas partes. Na primeira
apresenta a Introdução, que contém uma entrevista informal cedida a Dermeval
Saviani e Betty Antunes de Oliveira, e alguns subsídios que facilitam ao leitor
situar no contexto da vida e da obra do autor os temas abordados. Na segunda
parte, desenvolve os temas propriamente ditos “As Sete Lições sobre Educação de
Adultos”, oriundos de roteiros de aulas-conferências proferidas no Chile, em
1966, quando se encontrava exilado, transformados em livro por sugestão de seus
colaboradores.
Durante a entrevista, o autor tece críticas em relação aos
desencontros do ato de educar, revelando que é indispensável o caráter de
encontro das consciências no ato da aprendizagem, visto que a educação é uma
transmissão de uma consciência à outra, de alguma coisa que um já possui a
outro que ainda não tem, bem como esclarece pontos fundamentais de sua formação
e trabalho desenvolvido.
As sete lições abordam questões que traduzem
conceitos, concepções, enfim, o pensamento filosófico naquele momento histórico
vivido pelo autor, mas atualíssimo, sobre o tema “Educação de Adultos”.
No primeiro tema, resgata o campo teórico do conceito
Educação, processo pelo qual a sociedade forma seus membros à sua imagem e em
função de seus interesses. Seu caráter histórico e antropológico possibilita
uma visão de educação como processo influenciado pela sociedade, que determina
possibilidades e condições, probabilidades, meios e fins gerais da educação. A
educação é também fator de ordem consciente determinada pela consciência social
e objetiva do sujeito, de si e do mundo.
No segundo tema, o autor enfatiza a diferença entre
conteúdo e forma de educação, e prioriza a relação de interdependência entre
ambos. Deixa claro que só se diferenciam pela análise conceitual, à luz da qual
aparecem como opostos, porém, identificam-se na constituição de um ato real único.
Indagações como “a quem educar”, “quem educa”, “com
que fins e meios” remetem a uma distinção entre a consciência ingênua e a
crítica, deixando claro que a finalidade da educação é a mudança da condição
humana do indivíduo que adquire o saber de forma substantiva, alterando o ser
do homem.
Pinto aborda ainda o caráter ideológico da educação,
visto que se trata de um fenômeno social total, misto de interações e conexões
recíprocas, e como tal não pode ser dissociada, tratada isoladamente. Tal
pensamento nos remete à alienação educacional como uma característica da
atividade pedagógica, alertando para a necessidade imprescindível de que o
educador se converta a sua realidade, sendo antes de tudo o seu próprio povo,
passando da consciência ingênua à crítica, compreendendo a educação como
prática social, intransferível de uma sociedade à outra, servindo aos objetivos
e interesses das lutas pelo desenvolvimento e transformação do homem.
No terceiro tema, o autor retoma de forma mais
explícita a concepção ingênua, que à luz da filosofia não inclui, em sua
representação da realidade exterior e de si mesma, a compreensão das condições
determinantes que a fazem pensar tal como pensa; isto é julga-se como um ponto
de partida absoluto e acredita que suas idéias vêm dela mesma e assim provêm da
realidade. Nesse contexto, concebe o educando como ignorante em sentido
absoluto e como objeto puro da educação, vista como a transferência de um
conhecimento absoluto, abstrato, finito, a-histórico, sendo dever moral da fração
adulta, culta, detentora do saber.
Em oposição à concepção ingênua, o autor enfatiza
aspectos da concepção crítica, que é a representação mental do mundo exterior e
de si mesmo e que compreende que o mundo objetivo é uma totalidade na qual se
encontra inserida e é, por essência, histórica. Aqui, o educando é visto como
detentor de um saber, no sentido do conceito de cultura e sujeito da educação,
nunca objeto dela, já que essa se concretiza num diálogo amistoso entre
sujeitos. O conhecimento é visto como produto da existência real, objetivo,
concreto, material, do homem em seu mundo.
No quarto tema, o autor aborda a educação infantil e
a educação de Adultos pela importância de ambas na vida do homem. Deixa claro
que a alfabetização de adultos é processo pedagógico qualitativamente distinto
do infantil e o que distingue uma modalidade da outra não é o conteúdo, os
métodos, as técnicas de instruir, mas sim os motivos, os interesses que o
contexto sócio-politico-cultural, como um todo, tem quando educa a criança ou o
adulto.
O quinto tema aborda as considerações sobre o estudo
particular do problema da educação de adultos, aqui vistos na fase mais rica de
sua existência, plena de possibilidades, evidenciando e enfatizando a realidade
do trabalhador e o conjunto de conhecimentos básicos que possui.
Pinto lembra que a educação do adulto não pode
ocorrer separada da educação da criança. Essa, por sua vez, deve ser simultânea
à primeira, enfatizando que é um erro condenar os adultos à condição perpétua
de iletrados e concentrar recursos da sociedade na alfabetização das faixas
etárias menores, mais barata e de maior rendimento futuro. Erro sociológico,
que supõe o adulto culpado pela sua própria ignorância. Assim, para lidar com a
educação de adultos faz-se necessário considerar a sua condição de sujeitos
pensantes, dotados de experiências referentes e ao seu círculo de existência,
portadores de idéias, dotados de capacidade intelectual e, conseqüentemente,
atuantes e úteis a sua sociedade. O autor refere-se também às camadas iletradas
da população, que tendem a ser mais homogêneas pelas próprias condições em que
vivem. Assim, a educação de adultos visa a atuar sobre as massas para que
estas, pela elevação de padrão de cultura, produzam representantes mais capacitados
para influir socialmente. Desta forma, é imprescindível que a competência do
educador se concretize na prática de um método crítico de educação de adultos e
que dê ao educando a oportunidade de alcançar a consciência crítica instruída
de si e do mundo, por meio de conteúdos e atividades de real significância,
contemplando o que o educando adulto precisa saber para a sua inserção no mundo
letrado.
O sexto tema abordado por Pinto refere-se ao problema
da alfabetização e das concepções que os educadores têm sobre a mesma. Deixa
claro que é necessário partir do ponto de vista humanista e não idealista, ou
seja, ver o analfabeto como ser humano, como fato real, concreto, para depois
ver o aspecto sociológico, o analfabetismo. O analfabeto é, assim, uma realidade
humana, enquanto o analfabetismo traduz-se como uma realidade sociológica.
Segundo o autor, o analfabeto, em sua essência, não é
aquele que não sabe ler, e sim aquele que, por suas condições concretas de
existência, não necessita ler, embora em sua existência, pela experiência e
conhecimento, faça a sua própria leitura de mundo, que deve ser considerada e
respeitada por todos.
O sétimo e último tema trabalhado pelo autor nos
remete à questão da formação do educador, especialmente o educador de adultos.
Considerada de suma importância um dos pontos que deve ser contemplado em todo
programa de expressão pedagógica.
A pergunta
feita inicialmente é “quem educa o educador?” Para a consciência ingênua, a
resposta óbvia é “outro educador”, o que suscita novo questionamento: quem
educa este educador que agora está educando o outro?
Segundo Pinto, o educador deve compreender que a fonte de
sua aprendizagem, de sua formação é sempre a sociedade, mas que esta atua
indiretamente quando o educador recebe os conhecimentos, e diretamente quando
firma a sua consciência de educador.
Em sua
análise, o autor deixa claro que a formação do educador está condicionada aos
diferentes contextos e que nem sempre tem noção crítica de seu papel na
sociedade, como forças atuantes no desenvolvimento econômico, político e
cultural dessa mesma sociedade. Portanto, a formação do educador deve priorizar
a sua função social, a sua indispensável vinculação ao povo. Neste aspecto
tem-se verificado determinada inércia por parte dos educadores, que estacionam
no caminho de sua formação profissional, já que se julgam detentores do saber.
Essa inércia impede o acompanhamento do movimento da realidade vinculada ao
povo. O autor afirma que a cultura é, por definição, uma totalidade e, por
isso, é sempre possuída pelo povo como unidade social. Completa que o educador
precisa compreender que o povo é a matriz de toda cultura, e que o saber não é,
em si mesmo, cultura, senão que se torna tal quando representa um produto de
consciência geral. Portanto, o educador só desempenhará com proveito suas
funções se se conservar fiel às inspirações de seu povo, concretamente, das
massas trabalhadoras de seu país.
Ao longo de todo o texto, o autor prioriza o conceito
crítico de educação como diálogo entre educadores e educandos, num encontro das
consciências. Nesse sentido, ambos se sentem sujeitos ativos do processo de
aprendizagem e o educando, em lugar de estar sendo preparado para a sociedade,
está, ao contrário, preparando-a para si.
O autor conclui seu trabalho enfatizando que no processo de
educação não há uma desigualdade essencial entre dois seres, mas um encontro
amistoso pelo qual um e outro se educam reciprocamente.