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Memórias Subterrâneas: repensar a história regional entre lutas, práticas e representações

 

Mariana Esteves de Oliveira

Mestre em História Política e Movimentos Sociais pelo PPH da UEM; professora titular do departamento de História das Firb; professora substituta do Departamento de História da UFMS-CPTL.

E-mail: mari.esteves@bol.com.br

 

Resumo:

Neste artigo, analiso, por meio de um estudo de caso, como a construção e articulação consciente da memória oficial pode levar uma região à adoção de uma memória e identidade regional antes exterior à realidade de suas comunidades. A partir do estudo da história e memória “subterrâneas” da cidade de Andradina – SP, é possível ainda compreender tanto a imposição dessa memória oficial quanto a produção de uma contra-memória, operada a partir das lutas dos sujeitos comuns, homens e mulheres que desenham a história e lutam ainda para um reiventar da memória, onde essas lutas se tornem legítimas. Depois de resgatar, com auxilio de trabalhos recentemente produzidos, as histórias de lutas e possibilidades de memória, procuro ainda propor um novo programa pedagógico para o professor de história no âmbito das discussões acerca da história regional. Nesse contexto, tento chamar a atenção do docente em seu papel político e sócio-educativo na perspectiva de repensar, junto com seus alunos, um novo desenhar da memória regional a partir de novas fontes históricas, no espaço dos acervos de Movimentos Sociais, por exemplo.

 

Palavras-Chave:

Memória regional, contra-memória, história vista de baixo

 

Abstract:

In this article, I analyze, by means of a case study, as the construction and conscientious joint of the official memory can take a region to the adoption of a memory and before exterior regional identity to the reality of its communities. From the study of "the underground" history and memory of the city of Andradina - SP, the production of a against-memory, operated from the fights of the common citizens, men is possible still to understand in such a way the imposition of this official memory how much and women who draw history and still fight to to renew of the memory, where these fights if becomes legitimate. After rescuing, with I assist recently of produced works, histories of fights and memory possibilities, I still look for to consider a new pedagogical program for the professor of history in the scope of the quarrels concerning regional history. In this context, I try to call the attention professor in the its paper partner-educative politician and in the perspective to rethink, together with its pupils, a new to draw of the regional memory from new historical sources, in the space of the quantities of Social Movements, for example.

 

Key-Words:

Regional memory, against-memory, history seen of low

Neste artigo, pretendo tecer algumas considerações acerca da memória regional, a partir de um estudo de caso sobre a cidade de Andradina, localizada no Noroeste paulista [1], palco da atuação de diversos movimentos sociais importantes para a História da chamada Nova Esquerda (pós-1964), por suas lutas pela reforma agrária na década de 1970 e pela campanha para o Orçamento Popular a partir de 1984, além de Movimentos de Mulheres e Negros que hoje compõem o cenário político nacional por sua história e sua importância.

Não se trata, contudo, de pensar esse exercício apenas no âmbito da contextualização espacial do que fora meu objeto de pesquisa no mestrado em História da UEM, onde defendi a dissertação intitulada “O grito abençoado da periferia: trajetórias e contradições do Iajes e dos Movimentos Populares na Andradina dos anos 1980”. Para além de identificar e caracterizar a região onde os movimentos sociais que estudei atuaram, minhas pretensões repousam na necessidade de descortinar determinadas construções históricas, como representações e mitificações, concebidas aqui como elementos camufladores de contradições estruturais. Elementos de naturalização da dominação simbólica [2], inculcados e cristalizados na memória e na história prevalecente. Um deles é sem dúvida o grande aparato em torno da divulgação de uma identidade regional da cidade, a marca de “terra do rei do gado[3]. Dessa forma, viso, a partir desse estudo de caso com uma grande diversidade de novas fontes para a história regional, compreender o processo de construção-imposição de uma memória regional a partir de instrumentos simbólicos e sociais sobre uma identidade comum, bem como das lutas que promoveram a tentativa da construção-representação de uma contra-memória [4] que romperia com o elitismo dessa memória oficial.

Nesse sentido, proponho-me a questionar alguns pontos-chave dessa história e memória, construídas de cima pra baixo, tomando-as como representações tecidas intencionalmente, no seio da conjuntura política nacional e dos interesses das elites locais sobre essa região principalmente a partir dos anos 1930.

A rigor, acredito que, ao repensar a história dessa região pelo viés de baixo, com auxílio de trabalhos recentemente produzidos sobre ela (seja de antropólogos preocupados com a questão indígena, seja de historiadores e cientistas sociais ocupados em perceber os sujeitos históricos até então calados pela história tradicional) e com os documentos produzidos e acumulados pelos movimentos sociais da região (e sobretudo da entidade estudada), será possível desvendar algumas dissimulações e trazer à tona o que seriam condições concretas de emergência desses movimentos sociais, vale dizer, as contradições [5].

Buscarei perceber contradições que, de diversas formas, foram sentidas e vivenciadas pelos sujeitos, antes anônimos, que teceram aqui as suas histórias de vida, de lutas, de conformismos e de resistências. Contradições silenciadas pela história tradicional, que fizeram calar os homens e mulheres comuns, ao mesmo tempo em que se poderiam ouvir os gritos sufocados de uma história que vai muito além do consenso, de uma suposta paz trazida pelo progresso, de uma harmonia plástica cantada em seu hino [6].

Por fim, tentarei propor uma reflexão no âmbito das práticas pedagógicas do historiador-professor, no sentido de colocá-lo como sujeito ativo num possível processo de descontrução de memória oficial ou contrução de uma “outra memória”. Memória subterrânea revigorada, repensada, refletida, que valorize os homens e mulheres comuns e faça valer o modelo de educação inclusiva não apenas no sentido de políticas educacionais, mas também no ideal de perceber Joãos, Josés, Marias, e muitos outros, fazendo a história. Nessa perspectiva, penso que os próprios alunos, a partir de uma atitude renovada do professor, podem produzir esse conhecimento histórico regional, com práticas de pesquisa mediadas e orientadas a partir de uma busca pelo “viés de baixo da História”. Tudo isso só será possivel, no entanto, apartir de uma profunda releitura sobre o passado da região em questão, tal como tentei promover com o caso de Andradina, e que tentarei mostrar nas próximas páginas.

Contudo, antes de desenvolver a análise de tais questões, faz-se mister travar um breve diálogo teórico conceitual, como medida de esclarecimentos pontuais. São dois os principais pontos a serem tratados nesse pequeno interstício textual.

O primeiro refere-se ao conceito de representações aqui usado, tendo em vista a vastidão de definições e aplicações, bem como a respectiva abrangência temática. Nesse caso, achei válido reunir algumas considerações fornecidas por historiadores dedicados ao tema, tomando-os como norteadores do meu pensar, à medida que transubstanciaram o conceito de “sociológico” (operado principalmente a partir de Pierre Bourdieu) [7] em “instrumento da ciência histórica”.

Carvalho, ao discorrer sobre o assunto, propõe um entendimento das representações a partir do diálogo entre o historiador Roger Chartier e o sociólogo Pierre Bourdieu, definindo-as finalmente como:

 

classificações e divisões que organizam a apreensão do mundo social, como categorias de percepção do real. As representações são variáveis segundo as disposições dos grupos ou classes sociais; aspiram à universalidade, mas são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam. O poder e a dominação estão sempre presentes. As representações não são discursos neutros: produzem estratégias e práticas tendentes a impor uma autoridade, uma deferência e mesmo legitimar escolhas. Ora, é certo que elas colocam-se no campo da concorrência e da luta. Nas lutas de representações tenta-se impor a outro ou ao mesmo grupo sua concepção de mundo social: conflitos que são tão importantes quanto as lutas econômicas; são tão decisivos quanto menos imediatamente materiais (CARVALHO, 2005: 145).

Ao concordar com esse historiador, pretendo denotar o caráter intencional dessas construções tecidas historicamente, nas lutas pelo reconhecimento e pelo poder que estão em jogo. Poder dos grupos em “se fazer crer”, legitimar suas visões sobre o mundo social e assim cristalizar determinadas ideologias e inculcar idéias, é claro que a partir de um crédito concedido por quem destas representações são os alvos.

Biavaschi, amparado nas teorias de campos e habitus de Bourdieu, formula um sentido para a compreensão dessas lutas, igualmente entendendo-as como disputas pelo reconhecimento da autoridade “de se fazer crer” dos grupos. Concordo com ele quando assevera:

As lutas de representação explicitam as identidades sociais e os meios pelos quais um grupo impõe ou tenta expor sua concepção de mundo, seus valores, conforme o habitus social, compreendido este enquanto comportamentos adquiridos pelos grupos sociais em seus espaços de relações objetivas, como uma totalidade de acomodações permanentes que determinam ações específicas, de modo que os personagens atuam, em sociedade, conforme normas e códigos internalizados e, por esta maneira, aceitos como naturais (BIAVASCHI, 2003: 136).

Portanto, ao nortear meu olhar para as representações a partir desses conceitos, viso perceber nas experiências vividas pelos sujeitos, tanto as lutas pelas representações e pelo poder de tecê-las quanto seus desdobramentos conseqüentes, sejam eles as apropriações, reproduções ou mesmo as resistências.

Nesse sentido, desvelar representações tecidas de “cima para baixo” não significa revelar que os outros possíveis vieses estão alienados das representações, mas que existem espaços significativos entre elas. Espaços de classe, de poder, onde o pesquisador pode perceber os sujeitos em luta, em suas diversidades, na beleza e na miséria de suas vidas.

Um outro ponto a ser previamente elucidado tem a ver com uma certa defesa da “história regional”. É preciso esclarecer o que se entende e o que se pretende nesse aspecto. Isso por que o conceito de “história regional” sofre os estigmas de uma história do particular, uma história que se separa do macro. Ora, é preciso redefinir, nesse caso, tanto a idéia de “história regional” quanto o próprio conceito de região, já que a mudança desse último pode influir na compreensão da primeira.

Nesse sentido, partilho das idéias de que nem um nem outro são entes isolados do todo. Ao contrário, penso a “história regional” e a própria “região” como elementos que colaboram no entendimento do geral a partir das contraposições entre esse geral e o particular, o universal e o individual, o macro e o micro e assim por diante. Além disso, acredito num sentido muito mais complexo para ambos os conceitos.

No campo da história regional, por exemplo, o conceito de região e de representação são acertadamente passíveis de uma interessante correlação, sobretudo quando se percebe a “região” como um exemplo de representação, como algo que existe de fato porque a fizeram crer, e não apenas porque os limites geográficos se puseram – Ora, bastaria pensar que uma “região” só “pertence” efetivamente a um determinado Estado por conta das convenções políticas, por exemplo. Nesse caso, caberia à “história regional” a objetivação dessas representações e, portanto, o desvelar das lutas e sistemas de dominação.

Biavaschi, preocupado em respaldar sua pesquisa sobre a história regional da cidade de Santa Maria – RS, bem definiu que:

 

O fato de o espaço regional significar um valor simbólico permite que, alicerçado em um habitus específico, enquanto ‘regularidades associadas a um meio socialmente estruturado’ , um determinado grupo social privilegiado possa instituir e empregar, segundo suas necessidades, uma variada gama de representações e imagens de caráter ideológico e político que lhes possibilite, por meio de lutas simbólicas, ‘tornar manifesto um grupo, seu número, sua força, sua coesão, fazê-lo existir visivelmente; (...) manipular a imagem de si e sobretudo (...) de sua posição no espaço social’(BIAVASCHI, 2003: 138-39).

A “história regional” não deve preocupar-se, enfim, em formular uma história local, de si e para si, auto-explicativa, mas precisa relacionar-se amplamente com os conceitos teóricos gerais, atenta às práticas e representações, bem como com a história mais abrangente, nacional ou geral. Ela ganha, enfim, as prerrogativas de desvendar elementos que coadunam com funções mais amplas da ciência histórica, como por exemplo a de desvelar sistemas de representações que se configuram em “teias simbólicas” de imposição de poder, teias responsáveis pela naturalização da exploração do homem pelo homem.

Dado esse primeiro passo para as objetivações, é possível adentrar direto o cerne da questão: os pontos primordiais que constituem a memória e história oficial do município. O primeiro deles é a reificação da figura do pioneiro, sobretudo do fundador da cidade, o senhor Antônio Joaquim de Moura Andrade. O rico fazendeiro-empresário que encomendou o reconhecimento, “comprou” e loteou essas terras, explorando e vendendo grande parte desse chão. Refere-se a ele a homenagem ligada ao nome do município de Andradina. Também é ele o conhecido senhor Rei do Gado.

O segundo ponto é a idéia, construída no bojo da ocupação dessas terras e reproduzida até os tempos atuais, de que na região não havia ninguém até a chegada das frentes de expansão e pioneira [8]. Idéia de vazio demográfico que, ao passo que fortaleceu a heroicização dos que aqui chegaram, negligenciou a existência e a resistência dos antigos habitantes da terra, quais sejam, os indígenas.

Um terceiro ponto é sem dúvida a infundada “imagem” de pioneiros-empresários com machados à mão. Ora, não é preciso ser um expert em História Vista de Baixo para perceber a discrepância desse imaginário. Seria no mínimo estranho mentalizar, por exemplo, a descida do Sr. Moura Andrade de seu avião Stinson Santa Maria e com um facão à mão se lançar a limpar a mata e a gerar a roça. Nesse sentido, penso a necessidade de se resgatar a formação das primeiras classes trabalhadoras na região, tendo em vista sua conformação, o sistema de acesso ao trabalho e aos meios de produção, suas trajetórias, vivências e meios de resistências.

O contraponto entre esses vieses torna-se um espaço profícuo para se evidenciarem as contradições estruturais, bem como os aspectos culturais e sociais do proletariado local. O desenvolvimento de cada ponto, a contrapelo, faz-se necessário. Para a consecução desse objetivo, lançarei mão de um caso emblemático para se pensarem as experiências que estão na contracorrente da história oficial, o caso da Fazenda Primavera.

Por fim, pretendo destacar como os movimentos sociais procuraram entender a história regional, bom como como esses grupos vivenciaram e registraram a memória a partir de suas lutas e representações, e ainda elaborar uma proposta de como o professor de história poderia relativisar o elitismo da história regional, tão comum nas cidades, ao colocar os acevos de movimentos organizados, associações e sindicatos, à disposição dos alunos das redes de ensino.

                       

Um desvelo necessário

 

Para dar início à necessária contraposição das representações tecidas na história e memória oficiais, proponho-me inicialmente a exemplificá-las. Algumas das mais importantes estão poeticamente aglomeradas em textos de um memorialista local. Para ilustrar a idéia, optamos por reproduzir o poema Pitoresca [9]:

 

“Cidade dos Moura Andrade

Dos antigos pioneiros,

Só resta uma saudade

Destes antigos guerreiros.

 

Foram eles os primeiros

A pisar o nosso chão

Trabalhavam o dia inteiro,

Com o machado na mão.

 

A estes bravos pioneiros,

Que aqui chegaram um dia,

Juntando vários janeiros,

Construíram Andradina.

 

Obrigado Moura Andrade,

Obrigado Pioneiros,

Fica aqui nossa homenagem,

Povo bom e hospitaleiro”.

 

Nesse pequeno poema, é possível sinalizar para a série de questões que devem ser adotadas como pontos de partida para repensar a história regional, sem contudo, tomar a composição por um sentido formalista. Ou seja, interpretando os fatos e a história não como construções concretas tecidas por grupos ou sujeitos em luta, mas como mera construção literária.

Já na primeira estrofe é perceptível a reificação da figura do fundador. Reificação pautada no mito do pioneirismo, mito do novo bandeirante, herói do Estado Novo.

Apesar dessas terras haverem sido do interesse do Estado desde o tempo do Império [10], a idéia reificadora de pioneirismo (e nesse caso vale não somente para os Moura Andrade, mas também para a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB) integra o projeto nacional de expansão, integração e homogeneização do Estado-Nação que ganhou fôlego no Estado-Novo Varguista, como parte do processo de marcha para oeste. Processo de tentativa de se desbravar e conquistar o “sertão” com a condição de levar a ele a civilização e o progresso, de levar-lhe uma identidade nacional unificadora e heróica [11]. É preciso ressaltar também que tal projeto coadunava com aspirações nada isoladas do contexto internacional, tendo na emergência dos nacionalismos de direita na Europa, uma importante fonte de influência para a política nacionalista de Vargas [12].

Alcir Lenharo, ao discutir algumas estratégias presentes nesse projeto, aponta para as intenções que nelas se subscrevem:

O Estado que faz a Nação é projetado como seu anterior, capaz de resgatar a brasilidade e confirmá-la. Até aqui, o discurso do Poder reduz brasilidade a parâmetros geográficos e econômicos. Povoamento, ocupação, integração constituem os novos movimentos da Nação em busca de sua plenitude. Não é meramente casual o recurso de se mostrar um visual definitivo da Nação, um desenho geográfico que se repete constantemente nos mapas, uma geografia do Poder que só pode ser apreendida e interiorizada por todos a partir do sentimento de comprometimento e de participação em um só e memorizando espaço territorial nacional. O espaço físico unificado constitui o lastro empírico sobre qual os outros elementos constitutivos da Nação se apóiam: a unidade étnico-cultural, a unidade econômica, política, o sentimento comum de ser brasileiro (LENHARO, 1986: 57).

A marcha para oeste preconizou a exaltação do pioneiro como novo herói bandeirante, como um herói desbravador das promissoras terras da nação civilizada. Ela estimulou a adoração ao ser heróico, que leva o progresso e o bem comum a todo o território nacional, até seus mais longínquos confins, que a partir de então seria integrado em uma só cultura: a cultura brasileira. Foi nesse contexto que se deu a fundação da cidade em 1937 e a construção da sua memória posterior, martelando, incessantemente na população, a importância incondicional do rei do gado, do prédio da estação de trem, dos ícones e símbolos que ilustram a chegada da modernidade em áureos tempos de desbravamento heróico sobre essas terras virginais.

Destarte, na literatura concernente e em muitos outros relatos, prevalece a tendência em enfatizar a figura de Moura Andrade com uma imagem reificada, como o  responsável pela heróica formação do município e, nessa tendência, facilmente a história de Andradina se confunde a sua biografia. Moura Andrade tornou-se então esse herói desejado pelo Estado-Novo. De herói, logo tornou-se “rei dessa terra” [13].

Contudo, a história oficial não versou sobre os tortuosos caminhos de guerras e conflitos seguidos para que estas terras lhe fossem abertas. A história oficial não nos permitiu conhecer um outro lado da história de coragem desses novos bandeirantes, a história de resistência, por exemplo, de quem morava nas terras escolhidas e por elas muito lutaram.

Na história e memória oficiais, o que predomina é a idéia de que não havia ninguém nas terras a serem “ocupadas”. De fato, se houvessem divulgado que elas já tinham donos, possivelmente uma nódoa comprometeria o título de heróis da Nação dos nossos pioneiros. No poema acima, essa idéia se desenha em “Foram eles os primeiros, a pisar o nosso chão” mas ela pode ser conferida também em diversos outros relatos e na literatura geral sobre a cidade. Nesse caso é a antropologia que nos auxiliará no desmantelar da dissimulação. Em recente trabalho, Pinheiro retoma a cartografia indígena do Estado de São Paulo e nos lembra que a região em questão era território kaingang:

No início do século 20, conforme cartografia ‘Território de Migração dos Guarani Sul Brasileiros’, elaborada pelo indigenista Curt Nimuendaju, o território era distribuído entre as três etnias indígenas: no vale do Tietê e do Paranapanema estendendo-se, a leste, até o litoral, dominavam os Guarani, muitos deles em contato com povoações civilizadas; próximos ao rio Paranapanema, margem direita; numa região intermediária entre Guarani e Kaingang, estavam os Otí; e, de Bauru até o rio Paraná, em direção oeste, avizinhados ao norte pelos Guarani e ao sul pelos Otí e Guarani, até o rio Paranapanema, estavam os Kaingang “paulistas”, numa área ainda desconhecida dos colonos (PINHEIRO, 2005, SP).

Ainda segundo essa antropóloga, a relação desse povo com a terra era diversa da que os brancos estabeleceram em sua chegada. Para eles, a terra era fonte de vida e território comum, não poderia ser comercializada, vendida, e isso lhes causava problemas fatais.

O elemento indígena era, para as frentes que para aqui confluíam, um empecilho à civilização, ao progresso e à formação de uma região vantajosa e promissora em termos capitais. O índio era como a mata fechada: uma barreira a ser exterminada.

Além disso, os kaingang eram índios resistentes, fortes e audazes. Pinheiro argumenta que, contra a obstinação desses considerados “bravios”, “para grileiros, posseiros e criadores de gado a melhor solução era o índio desaparecer de vez” (PINHEIRO, 2005, s/p). Talvez por isso tenhamos aqui uma história de violência, cujas táticas de extermínio pudessem ser comparadas aos métodos das mais truculentas guerras.

Essa violência ficou, por décadas, camuflada no seio de uma história harmonizadora, repleta de consensos e heróis. Narrar a existência e resistência desses povos é um compromisso dos historiadores que pretendem uma história “a contrapelo” e uma história vista pelo viés de baixo para cima.

Na consonância dessa perspectiva da história, em recente trabalho sobre movimentos migratórios na região, Célia Reis da Silva argumenta que, mesmo antes do advento da construção da estrada de ferro por esses confins, em tempos de aventuras de posseiros e grileiros que almejavam ocupar essas terras e nelas enriquecer, os conflitos com os índios já poderiam ser percebidos como contraponto ao avanço da expansão capitalista. Segundo essa autora, ante a resistência desses grupos, os fazendeiros contratavam bugreiros para que matassem os indígenas, em ações que eram denominadas “dadas”, em que:

assumiam técnicas de operação bélica. A expedição era precedida pelo grupo dos mantimentos e armamentos da tropa, que partia carregado de armas de fogo e munição. Muitas vezes os bugreiros se escondiam na mata durante semanas, aguardando a realização das festas guerreiras e religiosas dos caingangues, nas quais estes se embriagavam com uma bebida que produziam. Os ataques costumavam ocorrer ao amanhecer, quando a tribo dormia. Matavam-se índios a tiros. Os cadáveres, depois de empilhados, eram incendiados. Os invasores às vezes envenenavam os alimentos e a água estocados pelos índios... Outras vezes, ateavam fogo em todas as cabanas, arrasando a aldeia (SILVA, 2000: 19).

Esses conflitos evidenciam dois lados em guerra. A resistência kaingang contra aqueles que vinham abrir as matas, os chamados cortadores de dormentes, se ilustrava em ataques em que contavam com as habilidades indígenas, de moradores e conhecedores da floresta. Contudo, o interesse por essas terras fazia com que esse povo se indispusesse com muitos inimigos. A “força do progresso” fora infinitamente maior.

Táticas de extermínio contra o indígena, excessivamente ofensivas e violentas, foram adotadas em tempos de construção da estrada que trazia a civilização [14]. Sobre isso, Silva argumenta:

A disseminação de doenças, como a varíola e o sarampo, que chegavam junto com a corrente imigratória, principalmente espanhola, para essa região, foi um recurso muito utilizado na dizimação dos kaingang. Roupas de doentes eram colocadas em pontos estratégicos, como nos trilhos ou locais por onde os indígenas passavam com o intuito de que estes se contaminassem, causando, assim, uma grande mortandade entre este povo (SILVA, 2000: 20).

Podemos chamar de “uma verdadeira guerra biológica”. Expedientes como esses foram responsáveis pela quase total extinção dos chamados kaingang “paulistas”, hoje reduzidos a poucas famílias residentes em uma pequena reserva que tangencia a cidade de Penápolis. São famílias descendentes dos sobreviventes e refugiados pela ação apaziguadora do então recém-criado SPI, Serviço de Proteção ao Índio, que “se limitava a pacificar os indígenas, já bem reduzidos, mantendo-os longe do processo de ocupação” (SILVA, 2000: 20).

Com a extinção dos kaingang, a preocupação em torno dessa região passou a ser a sua abertura, a limpeza das matas, enfim, a formação de um pólo produtor lucrativo. Os pioneiros ansiavam lotear, vender, arrendar, lucrar com as novas terras. Mas, repito que pensar esses pioneiros como atuantes braçais nesse processo é uma outra grande cilada tecida em representações. Tal idéia, formulada de cima pra baixo, é parte desse projeto de heroicização dos pioneiros “guerreiros”, “de machado na mão”, mas é facilmente desmentida, até por que muitos dos verdadeiros braços que derrubaram as matas ainda podem ser vistos pelas ruas da cidade.

 

Homens e machados: trabalho e cultura na aurora andradinense

 

Desde a década de 1920 já se podia notar a presença de camponeses, lavradores, pequenos proprietários que se aventuraram nessas terras em frente de expansão. Salvo a leva de imigração japonesa e espanhola [15], em sua maioria, esses homens eram oriundos no Nordeste, foragidos da seca, das dificuldades impostas pelo latifúndio, da miséria e da falta de trabalho e oportunidades. Eram os chamados nortistas [16].

Com o impulso dado pelo Estado integrador que rumava em marcha para oeste e o estabelecimento da frente pioneira, esses nortistas passaram a ter suas vindas incentivadas e até subsidiadas por políticas nacionais e estaduais de imigração que pretendiam suprir a carência de mão-de-obra.

Atraídos pelas propagandas que apresentavam Andradina como região promissora, onde poderiam construir suas vidas em meio à fartura e ao trabalho abundante, esses homens e mulheres deixaram suas terras, muitas vezes suas famílias, amigos, casa, criações e pra lá rumavam de diversas formas. No início, muitos empreenderam a longa viagem a pé, ou mesmo em caminhões ditos “pau-de-arara”, até que os subsídios se transformassem no “conforto” das viagens de ônibus. Silva, ao trabalhar com a memória de viagem dos migrantes por relatos orais, desenha a idéia que lhe foi passada nas seguintes palavras:

A viagem de mudança para São Paulo, na lembrança dos depoentes, aparece como momentos de muito sofrimento. Assim, a imagem desse fenômeno migratório é a de milhares de pessoas que têm recordações marcadas pela dor e pelas agruras de um processo de mudança. Processo este que não se limita a encontrar em um outro lugar, com todas as reações de estranhamento subjacentes a esta situação, mas de pessoas que vivenciaram situações produzidas pelo sonho, pela expectativa, e pelas intempéries e dificuldades da viagem.(...) A ‘aventura’ vivenciada por esses sujeitos foi pontuada por situações adversas, e a maioria dos migrantes se encontrava em situação de extrema penúria. Enfrentavam durante a viagem fome, sede, frio, corpo molhado de chuva; tiveram que enfrentar doenças e até a morte, como é o caso de seu Apolônio, que relatou o falecimento de uma irmã pequenina (SILVA, 2000: 64).

Não obstante as intempéries dessa travessia severina, trouxeram nas bagagens, os sonhos, os planos, as expectativas, as lembranças do lugar de origem. Lembranças não só das dificuldades, mas também das festas, das amizades, das comidas tradicionais, da forte religiosidade, que se fizeram sentir intensamente nas práticas cotidianas no novo lugar: “Assim, encontra-se ainda hoje na cidade, a procissão do Bom Jesus da Lapa, a festa da bandeira de São Pedro, novena pra São José, São João e Folia de Reis” (SILVA, 2000: 135) [17].

Trouxeram, sobretudo, a ânsia de vencer pelo trabalho. Trouxeram braços fortes, prontos para o cotidiano dessa nova roça paulista. Uma roça marcada pelo desmatar, preparar a terra, pelo semear, cultivar, colher, pelo criar de galinhas e porcos no terreiro para o sustento da casa. Mas é, principalmente, uma roça marcada pelo cotidiano da produção de algodão, milho, ou amendoim, é pois, antes de tudo, a produção comercial acordada nos arrendamentos, responsável pelos dividendos do uso dessa terra alheia [18].

Destarte, a mão-de-obra nortista foi utilizada em todas as etapas dos processos que culminaram na formação econômica da região, desde a derrubada até a formação dos pastos, sob diversos regimes de trabalho. A rigor, acreditamos que este processo seja de extrema relevância para se pensarem as condições materiais que se estabeleceram a partir dessas práticas.

Dentre as formas de trabalho e acesso à terra, o que predominou foi o regime de arrendamento [19]. Segundo Silva, “Para os nortistas o arrendamento representava a possibilidade de ter acesso à terra, uma vez que ao chegarem não possuíam condições financeiras para obter a sua posse através da compra” (SILVA, 2003: 95).

O sistema de arrendamento funcionava da seguinte maneira: o proprietário da terra, geralmente um latifundiário (já que um único proprietário arrendava para muitas famílias), cedia o uso da terra ao arrendatário, cujas prerrogativas compreendiam desde o desmatamento do lugar, os 25% da produção e a obrigação de servir-se dos produtos vendidos pelo proprietário (tal como insumos agrícolas, ferramentas e até empréstimos). Por isso as relações de vizinhança podem ser pensadas como relações amenizadoras da exploração, relações de resistência, ilustradas no costume de emprestarem ferramentas e utensílios entre si.

Vale lembrar aqui que essa exploração não passou despercebida por esses sujeitos. Silva argumenta que

a supervalorização dos produtos fornecidos por arrendadores e ou comerciantes ao arrendatários gerava muitos conflitos. A busca de enriquecimento de uns de melhoria de vida de outros significava interesses antagônicos que permeavam as relações (SILVA, 2003: 84).

Foi no contexto desse sistema que se fundamentou a formulação de uma estrutura voltada para o latifúndio pecuarista, próprio de uma “terra de rei do gado”. No regime de arrendamento, o arrendatário teria um acesso rotacional às terras de trabalho, cabendo a ele, quando ao final do período acordado com o proprietário, fazer a limpeza da terra e a plantação do capim de pasto. Em seguida, o arrendatário seguiria para outra terra e daria continuidade a um ciclo que somente cessou quando o pasto preenchera a visão da paisagem e resumira as possibilidades dos trabalhadores.

Dessa forma, o mesmo sistema de trabalho que atraiu esses sujeitos com as possibilidades de acesso à terra, que lhes deu perspectivas de melhoria de vida e algumas conquistas materiais, expulsou os trabalhadores do campo. Banidos ao final de um ciclo que compreendeu a vinda maciça de “braços” que abriram e, limparam a mata, plantaram o algodão, o milho, ou o amendoim (condição para o arrendamento), cultivaram pequenas roças e mantiveram, para a sua subsistência, pequenas criações, e, depois, para entregar a terra, plantaram o capim e viram o gado chegar. A terra se tornara exclusiva dos reis do gado, não havia mais espaço para “plebeus” da terra.

Nos depoimentos orais extraídos por Silva é possível perceber como os nortistas vivenciaram esse ciclo. A título de exemplo, reproduzimos a fala de dona Alexandrina ao rememorar as etapas finais de cada arrendamento de que participou. Assim ela resume:

Nóis saímos de lá por que disse que não era pra plantá mais, pra plantá capim. Toda fazenda que nóis saía era só pra plantá capim, toda fazenda que nóis morava, nóis fizemos não sei quantas mudança, não, nem mais sei das mudança (SILVA, 2003: 104).

Desse modo, o gado foi empurrando o povo afora. Num processo em que o proprietário em nada se extenuou, ao contrário, serviu-se do lucro gerado pelo arrendamento e apenas assistiu ao espetáculo de suas terras “virgens” transformando-se em produção e, posteriormente, em pasto, quando já não mais precisaria daqueles sujeitos.

Esse processo não foi, certamente, homogêneo. Não se deu de forma igual e concomitante em todas as fazendas da região, mas possivelmente foi sentido pela maioria desses trabalhadores do campo em algum momento da vida. Momentos marcados ora por conformismos, ora por resistências. É preciso lembrar, por exemplo, que muitos desses sujeitos, depois de alguns anos circundando nessa zona rural, já transpunham suas trajetórias para a cidade. Alguns migravam por causa dos estudos dos filhos, para morar perto das escolas que um dia poderiam garantir um futuro melhor às novas gerações. Outros vinham atraídos pelo frigorífico de Moura Andrade, o Mouran, que desde 1956, abria as possibilidades de trabalho com o mesmo “boi” que, pouco a pouco, os expulsava [20]. Para eles, possivelmente a pecuária não era tão algoz. Alguns desses sujeitos, segundo Silva, possuíam suas economias, guardadas ao longo dos anos, que lhes davam condições de comprar um terreno nos bairros que se abriam e ali construir suas casas (SILVA, 2003: 105).

Contudo, é preciso enfatizar que, na maioria das vezes, esse movimento para a cidade não foi voluntário. A expulsão desses sujeitos se deu à medida que as fazendas foram tomadas pela pecuária, atividade que não requer grandes contingentes de força de trabalho. E em conseqüência desse êxodo rural forçado, datado em média a partir dos anos 1960, inicia-se um processo de formação e crescimento de bairros de periferia na cidade de Andradina, tal como o Bairro Pereira Jordão, a Vila Mineira, Vila Botega e outros.

Mas, se, por um lado, precisamos atentar para a saída desses sujeitos e conseqüente formação de uma grande massa de trabalhadores “bóias-frias”, operários e desempregados, na formação da periferia urbana, por outro, é preciso chamar a atenção para os que resistiram a esse processo de banimento, os que lutaram para ficar na terra. Embora a resistência e os conflitos não apareçam nos versos da história oficial, consensual e harmonizadora, é preciso lembrar que não poucas lutas se travaram, e nesse sentido, um caso emblemático é o da Fazenda Primavera.

 

Um caso de enfrentamentos e contradições

 

Nacionalmente conhecida, a luta dos posseiros pela terra na Fazenda Primavera é considerada como marco inicial do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Estado de São Paulo. O MST divulgou, em sua página eletrônica oficial, um pequeno artigo sobre o histórico dessas lutas, rememorando que:

A origem do MST está na luta dos posseiros da Primavera contra a expropriação e a exploração. Essa luta marcou o início de um processo de organização do Movimento no Estado, que continuou se desenvolvendo a partir de várias outras lutas [21].

A rigor, a história desse conflito está vinculada aos processos já descritos, conformadores das características materiais e culturais da região e de suas conseqüentes contradições. Ou seja, é no ciclo de arrendamentos, culminando na formação dos pastos para a pecuária e expulsão dos trabalhadores (cujas trajetórias de vida eram tecidas num entrelaçado conjunto de elementos sócio-históricos e culturais comumente oriundos do Nordeste), que se contextualiza a luta dos posseiros da Primavera, com algumas peculiaridades.

Uma delas, por exemplo, foi a controvérsia sobre o pertencimento legal da fazenda. A propriedade das terras era conferida ao nome do empresário José João Abdalla, do grupo J.J. Abdalla S.A., que estranhamente não havia registrado em cartório a aquisição da Fazenda Primavera em 1944. A origem da propriedade era bastante duvidosa e o imbróglio causava polêmica entre os arrendatários locais, os chamados posseiros [22].Os últimos, no entanto, consta que ali estavam desde 1928 [23].

Ali era o mesmo ciclo. Limpar o mato, plantar algodão ou milho, fazer a colheita, entregar grande parte, e no ano seguinte, plantar capim, mudar. Girar, tornar e retornar o processo quantas vezes preciso fosse.

Mas vale lembrar que no âmbito das relações de trabalho, dentro do sistema de arrendamento, a percepção da exploração era cotidianamente vivenciada. Nos depoimentos orais colhidos por Maria Esther Fernandes, essa percepção é uma constante. Os posseiros destacam principalmente a exploração sobre os ônus do arrendamento, o atraso nos pagamentos da colheita, a ausência de notas fiscais, cheques cruzados para 60 ou 90 dias e recomendados a agiotas (que garantiam para si boa porção do valor para empreender a troca) e abusos cometidos pelo “armazém” da fazenda.

A essa exploração acima mencionada, somou-se a conseqüente coação causada pela formação dos pastos e a diminuição progressiva das terras de cultivo. Com o avanço da pecuária iniciou-se um processo de pressão para que os posseiros deixassem as terras. Pressão exercida em forma de ameaças de despejo. É possível demonstrar isso no depoimento dado por um posseiro à professora Maria Esther Fernandes:

‘Não tem conta de gente que morou aqui e foi embora, só de judiação desse Abdalla. Se eu fosse andar com você por aí...Entrou tanta família aqui e foi embora, que não tem nem conta. Aqui tá tudo furado de poço. Se eu fosse mostrar pra você todo lugar que morou gente, plantava capim e mudava pra frente. Pra poder por gado, mudavam o pessoal de lugar.(...) Quando queriam formar invernada, tiravam o pessoal de qualquer jeito. Teve despejo, outros fizeram acordo, outros tiveram casa queimada. Desacorçoava e ia embora’ (FERNANDES, 1985: 41).

Em meio a esse sistema de relações de acirrada exploração do proprietário sobre os posseiros, foi sobretudo a questão das ameaças de despejo que impeliu o povo à organização. Já em 1963, o Jornal da Região publicou notas da passeata promovida pelos trabalhadores agrícolas contra as ameaças de despejo na Primavera e em outras fazendas da região, em solidariedade às famílias dos posseiros [24].

Se por um lado é possível perceber essa solidariedade sendo tecida entre os trabalhadores da Primavera, num processo exemplar de experiência de classe, consciência e luta [25], por outro, observa-se que conforme o povo foi se organizando, o antagonismo refletiu-se em respostas cada vez mais violentas, configurando uma luta exasperada. A administração da fazenda acirrou as relações com os posseiros, lançando mão de recursos tais como emboscadas de jagunços, cortes das cercas para invasão do gado na lavoura, e outros. Nesse sentido, também é preciso reiterar que o próprio ciclo de sistema de trabalho já se constituía como expediente de expulsão dos posseiros, resultando em centenas de casos de êxodo e restando, ao final do processo, 312 famílias.                  

Segundo Maria Ester Fernandes, a luta dos posseiros da Primavera pela desapropriação da fazenda começou a tomar corpo quando os trabalhadores saíram em busca das leis, em busca de advogados que pudessem representá-los. Experienciaram então inúmeras frustrações, ora de profissionais pessimistas, ora de advogados que “se vendiam” e voltavam-se contra a causa dos trabalhadores. Aqui, cabe destacar a fala de um dos posseiros que buscavam saídas através dos artífices da lei: “Eu já passei aqui 9 advogados que Abdalla comprou tudo. Só não comprou a Igreja por que tem estudo e piedade do povo”. Nesses idos, quatorze famílias se reuniram e aceitaram a indicação da Igreja, elegendo Luiz Eduardo Greenhalgh [26]  como advogado da causa e conquistaram assim uma liminar que lhes garantia direitos prévios sobre a terra.

Mas a peleja não ficara nos tribunais. Ela se deu efetivamente no espaço vivido, ao longo de anos, marcada pela violência e pela solidariedade.

No final da década de 1970, o conflito acirrou-se ainda mais. Aumentou a pressão vinda da administração. O povo parou de pagar “renda” (obrigações do arrendamento). As porteiras foram fechadas. O gado foi solto em áreas de cultivo de posseiros. Casas incendiadas e cercas derrubadas. O povo se uniu [27] . Aqui, vale narrar um episódio: Certa feita, um caminhão da administração da fazenda pôs-se na terra de uma viúva que se encontrava só, a fim de derrubar-lhe a cerca:

Daí a fazenda veio desmanchar a cerca dela. Então, reuniram umas trinta mulheres e foram para a casa da mulher onde estavam derrubando a cerca. Tiraram a madeira do caminhão e jogaram no chão outra vez. Daí o administrador veio com o carro de jagunço. Tomaram a frente do carro, cada um com um pedaço de pau e enfrentaram o administrador (FERNANDES, 1985: 46).

Em outras ocasiões, a ação conjunta se reafirmava como estratégia de luta, o que irritava profundamente as autoridades, como quando diante da pergunta “quem é o cabeça?” a resposta do movimento era unânime “Aqui não tem cabeça. Aqui, quando um bate o pé, anda todo mundo” (FERNANDES, 1985: 49).

Essa afronta às autoridades mexia também com a opinião pública:

Então, ‘o pessoal formou uma corrente forte’. Contam que por ocasião da intimação de um morador da Primavera pra prestar depoimento na delegacia, reuniram 180 homens para dar apoio ao companheiro. Combinaram de ir todos de cabeça baixa, quietos, ‘como se estivessem acompanhando enterro. Todo mundo na Paes Leme (uma das principais ruas de Andradina) ficou espantado’. No salão grande do fórum, o promotor desceu perguntou o que o pessoal queria. ‘Se for pro companheiro ficar preso, pode arrumar cadeira pra todo mundo’. Mais de duas ou três vezes, pessoas eram chamadas pra prestar depoimento, sem saber para quê. ‘Queriam pegar o cabeça-chave’. Então, lotava 3, 4 carretas e descia todo mundo. ‘O senhor não vai conversar só com ele. É com todo mundo’. O delegado já ficava nervoso e mandava todo mundo embora (FERNANDES, 1985: 49-50).

O conflito, que por um sentido foi permeado por momentos de crises, frustrações, truculência, e por outro, repleto de esperanças, de forças para a luta, de solidariedade, encontrou seu desfecho a partir de 1979, ano em que a FETAESP organizou uma concentração com mais de 1500 trabalhadores de 47 sindicatos rurais em solidariedade às 300 famílias de posseiros. O primeiro semestre da década de 1980 foi marcado por grandes avanços no campo judicial para esses posseiros, que deixaram de pensar as possibilidades de acordo com Abdalla, tendo em vista a desapropriação anunciada.

É perceptível o reconhecimento da importância da esfera legal como o instrumento que deu a esses posseiros a desapropriação das terras da fazenda Primavera no dia 8 de julho de 1980 – o que obviamente ainda não livrava esses sujeitos de inúmeros problemas com jagunços, pistoleiros, Estado, bancos. Contudo, na memória desses homens e mulheres, fica claro que a vitória que comemoraram naquele dia era uma conquista da união de forças desse povo. Uma conquista agarrada pelas unhas, em uma luta sofrida, também cheia de perdas.

Nessa memória, nem homens de leis, nem sindicatos, nem a FETAESP, representavam a grande responsabilidade daquele ganho, salvo a Igreja, presente naquela luta através da ação da CPT: “A Igreja nos abençoou e nos deu força total. Força que não tínhamos. Foi um sindicato pra nós. Telefone, papel, comida” (FERNANDES, 1985: 55).

A bênção da Igreja e dos padres pode ser pensada, nesse caso, como legitimação do direito moral. A religiosidade arraigada no povo é certamente uma importante chave que ligou homens e mulheres comuns, da roça, de costumes pacíficos e festivos a uma luta por vezes violenta, brutal, desumana. Mas uma luta pela terra que eles consideraram suas, pelas vidas inteiras de trabalho nela empregadas. Destarte, a participação da Igreja foi sim, para eles, decisiva.

A CPT de Andradina, com sede na Igreja Nossa Senhora das Graças, pertencente à Diocese de Lins, começou a intervir na luta dos posseiros ainda na década de 1960, quando se iniciaram os conflitos, oferecendo a eles, além de uma assistência religiosa, um amparo social, ainda com um caráter assistencialista. Em 1977, a atuação da Igreja se voltou para a ajuda na organização e conscientização dos lavradores, e a divulgação, dentro e fora das comunidades católicas, dos meios de repressão violentos oferecidos contra esses posseiros a mando do proprietário. No ano de 1978, ela elaborou um relatório sobre a situação dos posseiros e o tipo de atuação que aspirava empregar, deste documento convém destacar a última página, cuja demonstração do nível de consciência social nos dá a diretriz do tipo de atuação desejada:

- A partir dos interesses e angústias do povo, dá pra desenvolver um bom trabalho; - Os problemas não se desenvolvem isoladamente, há uma necessidade de união de classe em vista de uma transformação social na estrutura agrária do país; - Uma vez despertados, a solidariedade e a criatividade diante dos obstáculos são grandes; - Há passos dados que alimentam a esperança, apesar de o caminho ser longo [28].

Foi a partir desse momento que a Igreja também passou a ser alvo da violenta repressão, dirigida sob dois aspectos principais. Primeiramente, constata-se uma série de críticas e ofensas aos líderes católicos, partindo dos fazendeiros, políticos e jornalistas, e veiculadas pela imprensa escrita e, sobretudo, falada. A imprensa também divulgou sistematicamente o pedido de intervenção ao Vaticano requerido pelo prefeito, com apoio de 17 municípios, contra atuação dos padres, considerados “marxistas”, “subversivos” e ainda, “casados[29].

Em seguida, a repressão ultrapassa a violência simbólica e alcança o âmbito da coação e violência física. O líder da CPT da época, Renier Parrens, mais conhecido como padre Renê, teria sido ameaçado várias vezes e, segundo o depoimento de Valdete Bertucci, para que ele chegasse às reuniões com os posseiros na “Primavera”, se escondia nos porta-malas de carros a fim de garantir a defesa de sua integridade física mediante as ameaças sofridas [30]. Os termos dessa violência não eram menos graves que os aplicados aos posseiros: “Em outra ocasião, quando o agente pastoral ia unir umas 80 famílias para celebração de uma missa (...), foi descoberta a intenção de uma emboscada para matá-lo” (FERNANDES, 1985: 155).

Coadunando com a forte religiosidade desse povo, em muito oriunda do jeito nortista de ser, a Igreja respondeu aos anseios desses sujeitos que não precisaram de muito para se perceberem como classe social, oprimida e castigada pelo patrão, pelo boi, pelo latifúndio, pelo dinheiro que corrompe. Porém, a meu ver, a Igreja não levou a esses sujeitos uma consciência nova, uma idéia que os libertou de um cárcere que desconheciam. Penso que a Igreja teve um papel muito significativo na luta pela terra na Fazenda Primavera, porque criou condições de reunir o povo, de oferecer-lhes material, apoio, orientação e respaldo, inclusive espiritual. Mas não lhe atribuímos a responsabilidade do enfrentamento que esses posseiros impuseram diante do latifúndio. Essa foi uma luta dos posseiros da Primavera.

Tanto esses posseiros cresceram com a ajuda da CPT no decorrer da luta, quanto essa ala da Igreja em Andradina pôde desenvolver sua tendência progressista a partir dessas e outras experiências, ou seja, lado a lado com o povo, nem adiante, nem atrás, mas juntos. Isso não passou despercebido pelos movimentos sociais que germinavam nessa região.

O Iajes [31] – instituição eclesiástica progressista que reunia e organizava diversos grupos em torno das lutas sociais em Andradina, bem como os movimentos que organizava, preocupou-se em pensar e escrever sobre a história regional de Andradina, uma vez que a história oficial, repleta de heróis pecuaristas e de ausências dos sujeitos comuns, em nada contribuiria na formulação das suas ações. Ao contrário, tal história, de tendências positivistas, conservadoras e tradicionais, é instrumento da conservação de tudo o que os movimentos pretendiam transformar. Nela, esses sujeitos jamais se enxergariam participando e agindo na história.

Nesse caso, vale retomar os sentidos que a entidade atribuiu às trajetórias dos sujeitos, à história da cidade, à construção dos espaços de suas ações e às lutas intrínsecas a estes processos [32].

 

O sentido da história para outros sujeitos da história: a construção de uma contra-memória

 

Nos documentos produzidos pelo Iajes, a história regional ganha um sentido fundamental, pois é comumente instrumentalizada para compor os termos de justificativas de projetos de ação do instituto e dos grupos ligados a ele. O Iajes procurou representá-la de forma crítica, questionando grosso modo a história oficial (apesar de não mencionarem a existência, o extermínio e a resistência indígena na região) e empreendeu, em geral, uma abordagem materialista da história, partindo das lógicas que tomavam como princípios norteadores os processos econômicos que fundamentaram o espaço regional, bem como a questão das classes sociais.

Assim, nesses apontamentos, pude notar as descrições dos ciclos econômicos dos arrendamentos rurais, o esvaziamento do campo a partir da gradativa hegemonia da pecuária, a ebulição econômica efêmera dos tempos de construções de barragens, as ações de classe na cidade, entre outros. Tudo isso foi classificado como fatores da grande instabilidade que, segundo o instituto, caracterizou fortemente a região [33].

Para o Iajes, as trajetórias dessa história regional determinavam os grandes problemas e contradições em dois âmbitos principais: o econômico (no raciocínio quase automático que levava à trágica seqüência: “triunfo” do latifúndio – êxodo rural – inchaço das periferias – mazelas sociais) e político, pensado como elemento combustível da manutenção e aumento das desigualdades apontadas.

Vale lembrar que as Comunidades Eclesiais de Base, um dos importantes instrumentos de ação dos movimentos em Andradina, se constituíam numa esfera nacional como órgãos de ação da Igreja preferencialmente onde e quando o Estado se distanciava ou se ausentava e os problemas sociais se agravavam, ou seja, nas periferias urbanas e zona rural. Assim, a formação histórica dessas periferias desenhava as conjunturas dos espaços nos quais se davam as ações pastorais, dos grupos populares, enfim, dos movimentos de base.

Os caminhos tecidos nas trajetórias dos sujeitos até a periferia de Andradina e os problemas gerados nesses caminhos (como a concentração de renda também resultante do latifúndio) configuraram-se, desta forma, como importantes referenciais de história e pontos de partida para justificar sua própria existência e empreender ações. Segundo o Iajes:

É significativa a redução do número de estabelecimentos agro-pastoris revelada pelos censos de 1960 a 1970. Nos municípios de Andradina e Nova Independência passaram de 1.178 estabelecimentos em 1960 para 794 em 1970. Dados extra-oficiais confirmam a continuação deste processo de concentração que elimina as pequenas e médias propriedades. Concentração de rendas, acumulação de terras, substituição da agricultura pela pecuária, êxodo rural, são fenômenos que se desenvolvem contemporaneamente na região. Os trabalhadores rurais, saindo da roça onde sempre moraram e para qual possuíam uma tecnologia de trabalho, ainda que não sofisticada, vão se fixar nas zonas marginais das cidades, em condições precárias de higiene e de habitação. A zona urbana nada mais era, no passado, que o entreposto de serviços para a zona rural; como esta se esvaziara, a economia urbana não tem condições de manter o mesmo nível de emprego, quanto mais propiciar novos empregos. Afastados do mercado de trabalho, não por falta de capacitação, mas sim por que este mercado está em crise, os ex-trabalhadores rurais e suas famílias transformam-se em figurantes dos problemas sociais de desagregação familiar, alcoolismo, prostituição e desamparo de menores (...) A cidade não consegue instalar um mínimo de infra-estrutura urbana, como água, luz, esgotos, guias e sarjetas, transportes e escolas [34].

A desestruturação urbana, resultante tanto do êxodo rural involuntário quanto do fim das construções de barragens na região, revelava para o Iajes e para os meovimento alguns pontos de partida para sua atuação. Evidenciava as feridas diversas que deveriam ser sanadas a partir do envolvimento com a comunidade para a transformação daquela insalubre realidade.

A interpretação da história regional pensada pelo Iajes vai além dos automatismos economicistas, de pensar os problemas vividos apenas como conseqüências diretas de trajetórias econômicas excludentes e elitistas. Como as preocupações e abordagens de atuação do Iajes compreendiam o universo político, essa esfera de ação e percepção da história também se fez sentir nas suas interpretações do passado e de seus desdobramentos.

A história política de Andradina, segundo o Iajes, era determinante para a culminância dos problemas apontados pelos agentes pastorais nos estudos sobre o tema. De tal modo, ela tornou-se um importante referencial para as futuras atuações do instituto e para as suas ponderações acerca do campo político.

Nos estudos promovidos na década de 1970, a entidade percebeu situações de monopólio de poder na região, atreladas às questões econômicas já relatadas, e assim as descreveu:

 

Dois grandes grupos econômicos dominam: os que se ligam aos antigos fundadores da cidade, os Moura Andrade, donos de grandes fazendas e de boa parte das ações do Frigorífico Mouran, e os que se ligam ao assim chamado grupo dos “turcos”, com interesse nos campos de propriedades rurais, de empreendimentos comerciais e da área de serviço. Politicamente esses mesmos dois grupos se revezam na administração da cidade [35].

De fato, a história política de Andradina não diverge da história do poder em uma abrangência nacional. É nas mãos da elite dominante que o poder na região se fez colméia, tecida a partir de relações de parentesco intimamente vinculadas às afinidades econômicas. Assim, notamos a presença exemplar do filho de Moura Andrade, Antônio Soares de Andrade, na prefeitura do município entre os anos de 1969 a 1973 (MAINARDI, 1997: 31). Famílias pecuaristas ligadas a essa casta também podem ser percebidas. Mas é interessante pensar os motivos que fizeram o Iajes destacar um outro grupo dentro das alternâncias de poder: O Grupo dos “turcos”. Pensamos convictamente que a nota faz alusão à família Salomão e adjacências. Realmente sua presença nos poderes executivo e legislativo foi constante a partir de 1952, mas não exclusiva.

Contudo, acredito que o destaque dado pelo instituto refere-se ao fato de que no momento no qual o Iajes começa a atuar de forma mais crítica na região, empregando suas pesquisas sobre a história da cidade e sobretudo seu apoio aos movimentos sociais, o prefeito da cidade, Edmon Salomão (ARENA: 1977-1982), médico e pecuarista, estava em plena campanha contra a atuação dos posseiros e dos padres progressistas na Fazenda Primavera, cujo dono, o J.J. Abdalla, era seu primo [36].

Ao longo dos anos, o instituto teceu inúmeras críticas às posturas desse prefeito, não apenas por sua posição elitista de latifundiário e sua estreita adequação ao regime militar mas também, segundo o próprio Iajes, por se mostrar “autoritário, conservador e anti-popular[37].

Não pretendo questionar juízos de valores formulados pela entidade, mas, se por um lado, a história escrita pelo Iajes em seus documentos peca por uma culpa que ele não tem, a da ausência de um nível acadêmico importante, pois não podemos julgar a entidade em seu papel de historiadora, já que ela não o é. Por outro, é perfeitamente aceitável que, ainda também se utilizando de representações, os sujeitos “de baixo” busquem uma história que não os negue, não os negligencie, e sobretudo, os permita existir para si e para os demais, informando-os que estão certos em suas lutas e justificando suas ações.

Se atentarmos para o fato de que o historiador busca pensar o passado a partir das questões que lhe chegam no presente, podemos perceber que o instituto, ao tecer suas considerações e significações diante dessa história regional, preocupava-se em apontar para fundamentações históricas que tivessem um caráter político e uma postura de oposição pautada num saber histórico, consciente.

Nesse sentido, dar ouvidos ao tom das ponderações e das reflexões do Iajes e dos movimentos sociais ligados a ele não explicam absolutamente a história da cidade, não revela a história regional, mas contribue, grosso modo, para perceber o caminhar das suas ações e, assim, perceber um outro viés sobre a história da cidade, a história da região, da própria construção de uma espécie de contra-memória. É a partir dessa perspectiva que empreendo uma reflexão em busca da proposta pedagógica de subermersão à memória excluída.

 

Ao invés de conclusões, propostas!

 

Se hoje o professor de História tem uma diversidade de recursos pedagógicos muito maior que tinha a trinta anos atrás, isso nem sempre sinaliza para a possibilidade de nossos alunos compreenderem o processo de construção do conhecimento histórico, e tampouco que discutem conscientemente a partir de uma “História Vista de Baixo”. Se hoje o professor de História dispõe de arquivos e museus onde pode, junto com seus alunos, promover atividades de encontro entre as fontes e os sujeitos, isso nem sempre aponta para um avanço social e político no viés dessa história produzida. Isso se dá por que, sobretudo nas pequenas cidades do Brasil, quem detém esses “meios de produção” científicos ou são órgãos governamentais ainda bastantes comprometidos com a exaltação do pioneiro, ou são universidades que ainda não se estruturaram para possibilitar verdadeiras aulas de ensino fundamental e médio dentro de seus arquivos. Há ainda um problema relativo à formação continuada dos docentes, mas podemos deixar esse assunto tão rico para um outro texto, com uma nova discussão e novas propostas. Mas devemos destacar que a idéia de promover um conhecimento histórico junto com os alunos e a partir de uma memória de baixo, oriunda do subterrâneo, necessita de uma adesão contuntende por parte do professor, e de uma postura política bastante definida.

Para empreender as atividades que levem os alunos a repensarem a história regional, o professor deverá apresentar-lhes novos espaços da produção histórica, um deles é, como vimos aqui, o acervo de movimentos sociais. Sentar os alunos num pátio de uma associação em companhia de sujeitos que tenham vivido a “contra-história”, e ainda promover entrevistas, pesquisas com documentos, jornais, correspondências, fotos, e tudo o que um movimento organizado tenha acumulado, só poderia contribuir para a relativização de uma memória que exclui esses próprios alunos, e suas famílias, da história que lhes fora contada desde a infância, história essa em que eles não se percebem, não se encontram, não se identificam.

Se, como vimos, os movimentos sociais e suas instituições organizadoras – como o Iajes – acumulam e produzem material sobre a história regional e a partir dele promove suas ações de luta, está aí mais um instrumento do professor para discutir com seus alunos a história contraditória que tentamos desenhar nos quadros negros e nem sempre nos fazemos entender. Entretanto, a produção do conhecimento histórico mediado nesse contexto não precisa gerar uma tese acadêmica para nossos alunos, ela gera pois, em primeiro lugar, uma nova dimensão da história, da memória e da sociedade em que eles habitam. Se o professor conseguir levá-los a isso, já pode se considerar mestre com distinção e louvor. Ele terá contribuído, enfim, para a percepção do profundo fosso existente entre as memórias, as histórias, as vidas e as classes.

 

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RELATÓRIO Iajes: Das comunidades de Andradina, 1977, p. 03.

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[1]  A localização exata da cidade, situada a menos de 40km das fronteiras do Estado do Mato Grosso do Sul e a cerca de 640km da capital, São Paulo, pode ser conferida em < http://www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php >.

[2] Sobre isso, ler: BOURDIEU, 2000.

[3] São muitos os símbolos que reafirmam a identidade de “terra do rei do gado”. Em comum, possuem a exaltação da imagem e a homenagem à frente pioneira, àqueles que dão sentido ao marketing regional, simbolizando uma terra de prosperidade baseada na pecuária e na força desbravadora dos homens que tornaram tudo isso "verdade". Outrossim, os ônibus municipais de Andradina possuem tais escritos, que também se subscrevem nos documentos oficiais da prefeitura. A legenda também pode ser conferida nos jardins centrais, nos memoriais, homenagens, jornais locais e assim por diante. Muitos outros símbolos reafirmam esse status quando se percorre quarteirões centrais da cidade. Bustos e placas estão por toda parte, em frente ao estádio municipal, ao recinto de exposições, às praças, ao paço municipal e demais lugares públicos.

[4] Sobre o conceito de “disputa de memória”, ou “memória em disputa”, ler: POLLAK ,1989.

[5] No entanto é preciso ter em vista que a abordagem empregada neste tema não se limita a pensar a ação dos sujeitos como limitadas às esferas do campo econômico das relações de classe. Para além do material, penso que tais relações são também definidas no âmbito, por exemplo, da cultura (desde que não se aliene esse campo do outros, como do trabalho).

[6] Como já foi ressaltado, é possível encontrar esses elementos de representação da harmonia, do progresso salvador e da reificação do pioneiro em diversos símbolos municipais. O hino da cidade é um caso emblemático: “De Andradina sou filho, Desta terra linda e gentil, Que busca seguir com brilho, O progresso do Brasil, Sonho feito realidade, Cidade da selva erguida, Por mão firme de verdade, De um pioneiro foste erguida, Foi o teu lema: o trabalho, O trabalho amigo e constante, Servir, e, dar agasalho, Foi o teu feito mais brilhante, E todos os que abrigaste, Hoje, unidos constroem ligeiro, A bela urbe que ergueste, Neste solo brasileiro”. Fonte: www.andradina.sp.gov.br/ . Este site também contém dados estatísticos socioeconômicos e históricos sobre o município.

[7] Ler: BOURDIEU, 1974.

[8] Nesse trabalho, utilizo o termo "frente pioneira" em concordância com a concepção pensada por José de Souza Martins (1972). Para esse sociólogo, a frente pioneira é representada pelo avanço da ocupação capitalista em terras ainda pouco exploradas. Tal ocupação decorre coadunando com sentido de propriedade privada, concebendo a terra como mercadoria, para o seu loteamento, compra e venda. Nesse sentido, frente pioneira contrapõe-se a “frente de expansão”, que segundo Martins, nesse segundo caso, a terra não adquire sinônimo de propriedade privada, sendo portanto ocupada sem "compra", geralmente por posseiros.

[9] Essa poesia faz parte de um conjunto de homenagens ao cinqüentenário da cidade de Andradina, reunidas no livro intitulado “Jubileu”, escrito e organizado pelo memorialista Ronaldo Mainardi. Na obra, muitos outros poemas fazem menção aos temas relacionados aqui, contudo, optamos por Pitoresca por acreditar que as representações enfatizadas nesse texto revelam quase brilhantemente as idéias preponderantes da memória histórica da cidade. Ler: MAINARD, 1987.

[10] Segundo Valdeci Fontoura, essa região fora alvo do interesse integracionista do Estado ainda quando éramos Império: “sempre houve a preocupação estratégica por parte dos governos imperiais em ocupar a região, para facilitar a comunicação com a Província de Mato Grosso e garantir a integridade territorial do país” (p. 82). Ainda o mesmo autor atenta para um momento seguinte em que os interesses nessa região se configuravam a partir dos projetos nacionais também dos primeiros anos do século XX: “Outra investida no extremo noroeste paulista deu-se com a implantação do Projeto de Integração Nacional (datado da primeira metade do século XX), que, com o objetivo maior de propiciar o comércio com o sudeste Boliviano e o norte Paraguaio e também, agilizar a comunicação entre o litoral paulista e o então Estado de Mato Grosso, impulsionou o início da construção da Estrada de Ferro da Noroeste” (p. 83). Ler: SANTOS, 2005.

[11] Segundo Lenharo (1986), o projeto compreendeu um considerável aparato intelectual dentro do Estado Novo e contou sobretudo com os intelectuais orgânicos de direita como Cassiano Ricardo e ainda com a enorme influência das teorias de pensadores estrangeiros como Frederick Turner. Também Carvalho tratou do tema em artigo, discutindo ainda algumas comparações entre Turner e Ricardo.

[12]  Sobre as relações entre a política getulista e emergência dos Estados totalitários na Europa, ver: PEREIRA, 1997, p. 113-129.

[13] É importante ressaltar essas duas representações como as mais preponderantes da memória histórica e da identidade regional. A primeira delegando a Moura Andrade a responsabilidade heróica e histórica de pioneiro fundador, e a segunda, transpondo sua identidade de "Rei do Gado" para a identidade da cidade (terra do rei do gado) com o esforço de uma “imposição de memória”, como podemos observar nos seguintes dizeres, retirados da apresentação do município de Andradina na página virtual da Emissora Globo de Televisão regional, a TV TEM:

"Andradina nasceu do sonho de Antônio Joaquim de Moura Andrade, um dos maiores pecuaristas da história do Brasil. Reconhecido como Rei do Gado, Moura Andrade veio de uma família pobre, mas sempre foi em busca de seus sonhos. Ao deixar a casa de seus pais, Andrade disse que só voltaria quando tivesse condições de proporcionar uma vida melhor aos seus parentes. A cidade de Andradina começou a ser idealizada em 1932, quando o Rei do Gado decidiu buscar e conseguiu, junto à NOB (Noroeste do Brasil), uma rota da linha férrea interligando o trecho entre as cidades de Guaraçaí e Paranápolis. Seu sonho de formar uma cidade nas terras, que até então eram suas, era tão grande que ele encomendou ao escritório de engenharia Benelow & Benelon um projeto para urbanização da futura cidade. Devidamente planejada, Andradina surgiu em 11 de julho de 1937 com uma área de 2.713 quilômetros quadrados.

Para povoar a cidade e instalar as primeiras casas comerciais, Moura Andrade vendia e doava lotes de suas fazendas a quem gostaria de morar na futura cidade. Cinco meses depois de fundada, Andradina já contava com uma estação de trem e suas primeiras casas. No dia 10 de novembro de 1937, a vila fundada pelo Rei do Gado foi elevada a Distrito (...) A cidade cresceu em volta da estação ferroviária, que hoje abriga um grande centro cultural, preservando a arquitetura histórica e abrindo as portas para novas gerações de artistas." Disponível em: < http://tvtem.globo.com/andradina/ > (no link História). Acesso em: 26/08/2005.

[14]  Para um estudo aprofundado sobre essa Estrada de Ferro que corta o Brasil rumo ao oceano pacífico, a NOB, ler: QUEIROZ,1999.

[15] É preciso lembrar que a região contou com os fluxos migratórios de espanhóis e japoneses que adquiriam pequenos lotes ou abriam casas de comércio. Esses imigrantes, por exemplo, os japoneses, fincaram raízes na região a acabaram por constituir uma considerável comunidade nipônica.

[16] O termo “nortista” é utilizado aqui em concordância com a obra de Célia Regina Reis da Silva, que em sua dissertação de mestrado tratou da imigração nordestina para a região de Andradina. Para ela, o uso do termo “nortista” significa respeitar a identidade dos sujeitos por essa ser a reconhecida pelos depoentes e incluir os mineiros na terminologia, já que estes provinham do norte de Minas. Sobre isso ler: SILVA, 2003.

[17] A rigor, é preciso ainda entender esses traços culturais como elementos importantes nas ações dos sujeitos, permeados por relações muito mais complexas (para além dos automatismos economicistas) que constituem matrizes culturais de homens e mulheres em suas diversidades, suas ambigüidades. Matrizes conformadoras da cultura popular, vista aqui em harmonia com a concepção de Marilena Chauí, que a define como “um conjunto disperso de práticas, representações e formas de consciência que possuem lógica própria (o jogo interno do conformismo, do incorformismo  e da resistência), distinguindo-se da cultura dominante exatamente por essa lógica de práticas, representações e formas de consciência”. Sobre isso, ler: CHAUÍ, 1986.

[18] Para um estudo aprofundado sobre o desenvolvimento econômico da região de Andradina, ler: HESPANHOL, 1996.

[19] Em 1950, a região de Andradina apresentava um grande número de arrendatários. Segundo Hespanhol (1996), 41% dos estabelecimentos eram explorados por tal categoria de produtor.

[20] Posteriormente, um outro ponto de “atração” para a cidade de Andradina a partir dos governos militares e, sobretudo a partir do processo de “milagre econômico” da década de 1970 foram as construções de barragens na região. A construção do complexo de Urubupungá compreendia uma enorme atração de mão-de-obra para Andradina e região, já que as duas hidroelétricas em construção (Jupiá e Três Irmãos) situavam-se nas cidades menores próximas ao município. Esse segundo fluxo migratório foi também intenso, provocando crescimento acelerado da cidade e dos municípios vizinhos, mas cessou com a finalização das construções e gerou um novo período de retrocesso econômico a partir de final da década de 1970.

[21] Artigo publicado em: < http://www.mst.org.br/mstsp/andr.htm >, Os posseiros da Primavera, acesso em: 5/12/2004.

[22] O termo “posseiro” sugere algumas polêmicas, pois seu sentido pode variar de acordo com a região ou literatura que o aborda. No entanto, deve ficar claro que, no caso, trata-se da forma pela qual os arrendatários da terra se denominavam e como ficaram conhecidos. O arrendamento da terra já foi descrito anteriormente, mas para melhor entendimento ler: HESPANHOL, Op Cit. 1996.

[23] FERNANDES, 1985.

[24] Jornal da Região, 11/06/1963, p. 03.

[25] Aqui é preciso lembrar como o conceito de classe social e luta de classes é pensado. Segundo a teoria marxista thompsoniana, a categoria de classe é histórica, concebida em seu fazer-se, e não algo dado, estático. Ela deve ser pensada a partir das experiências dos sujeitos em luta, assim como a sua consciência, que deve estar atrelada à idéia de percepção e ação de classe. Para adensar-se ao tema, ler: THOMPSON, 2001.

[26] Segundo dados retirados da Folha de São Paulo, o Dr. Greenhalgh tornou-se conhecido por defender trabalhadores sem-terra sendo o advogado do MST e de outros movimentos, e também por contribuir ativamente no processo que resultou no “Brasil: Nunca Mais”. Além disso, também se fez notar no meio político como membro-fundador do PT e vice-prefeito de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989-1992), e etc. Fonte: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u67202.shtml >.

[27] Maria Ester Fenandes data uma efetiva união das famílias de trabalhadores a partir de maio de 1979, Na transformação da luta de algumas famílias em uma luta só, de todo o povo da Primavera, em resposta ao acirramento das pressões de Abdalla.

[28] Documentos Iajes, Reflexões, CED, 1980, p.27

[29] O Estado de São Paulo, 1982, s/d, p. 11.

[30] O Jornal da Região, 09/07/1980, p. 01.

[31] Instituto Administrativo Jesus Bom Pastor.

[32] Não poucos documentos redigidos pelo Iajes tratam da história regional, contudo, pude perceber que se baseiam numa mesma matriz de interpretação e num banco de dados geral. Tal matriz fora formulada num documento-base, resultado de um estudo histórico-sociológico promovido por agentes do próprio Iajes com a colaboração de agentes pastorais externos, no ano de 1976. O título desse documento-base é Andradina: Uma Cidade da Alta Noroeste.

[33] São muitos os documentos da entidade que trazem essa perspectiva, os mais destacáveis, contudo, são os: RELATÓRIOS Iajes: Das Comunidades de Andradina, 1976; RELATÓRIO Iajes: Das comunidades de Andradina, 1977; da Comunidade Jesus Bom Pastor vila Pereira Jordão, s/d; Do Ameaço de projeto de saúde para Andradina, 1979; Estrutura da Igreja de Andradina, 1982.

[34] RELATÓRIO Iajes: Andradina: Uma cidade da alta noroeste, 1976, p. 01.

[35] RELATÓRIO Iajes: Das comunidades de Andradina, 1977, p. 03.

[36] Foi Edmon Salomão que, enquanto era prefeito de Andradina, formulou, por ocasião da atuação dos padres no movimento dos posseiros da Primavera, o documento pedindo intervenção do Papa João Paulo II nas ações da Igreja de Andradina e na Diocese de Lins, cujas atitudes se evidenciavam “marxistas” e “subversivas”, segundo o mesmo, em diversos artigos publicados em uma revista local “PANORAMA Flash News”.

[37] Documentos Iajes: Reflexões sobre o Trabalho Pastoral-Social na Periferia de Andradina, 1981, p.29

 

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