VOLTAR

Como citar este artigo

A interação como condição para a participação

 

A. Wilson Rodrigues

Doutor em Educação – Unesp/Marília

Coordenador o curso de Pedagogia das FIRB

E-mail: ap.wilson@uol.com.br

 

 

Resumo:

O presente artigo pretende através de estudo comparativo entre duas escolas da rede oficial de ensino, equacionar possível confusão que acontece quanto ao entendimento das categorias interação social e participação política, a primeira com propósito integrador e consolidador da organização social vigente e a segunda com possibilidades de provocar alterações na estrutura das instituições sociais.

 

Palavras-chave:

Escola interativa; interação social; participação política

 

1. A enorme diferença entre uma escola pouco interativa e outra não

;Com o interesse de constatar se o mínimo de interação que acontece nas escolas, muito mais determinada pela informalidade do que através dos canais institucionalmente apropriados, está contribuindo para a melhoria do processo pedagógico, comparamos duas unidades estaduais de ensino, com características estruturais semelhantes e dinâmicas de funcionamento diferenciadas.

;Duas escolas da rede pública de ensino, situadas no mesmo município, supervisionadas pela mesma Regional de Ensino, com estrutura organizacional semelhante e demanda também muito próxima, fazem-nos acreditar que o nível de interação dessas unidades de ensino, por mais incipiente que possa aparentar, é muito importante para a comunidade escolar e pode redundar em significativos benefícios para seus alunos.

;Suspensão das atividades escolares, proibição da entrada de alunos por  inobservância do horário ou sem uniforme escolar, depredação da estrutura física e dos equipamentos escolares, desrespeito aos professores, funcionários e colegas, interferência do Conselho Tutelar, são muito mais freqüentes na escola pouco interativa. Contando com o apoio dos pais e compreensão dos próprios alunos, a escola mais interativa minimizou e até equacionou alguns dos problemas elencados.

;Interessante foi notar a diferença na satisfação dos alunos em pertencer a uma escola e, a insatisfação verificada na outra, em decorrência de sua imagem estigmatizada. Em uma, professores, funcionários e alunos desempenham seus papéis com certo orgulho; na outra, o fazem talvez em sua maioria por obrigação, no ‘estrito cumprimento do dever’.

;Para dimensionar essa diferença de qualidade em escolas com estruturas semelhantes, tentamos caracterizar e registrar um pouco do cotidiano de cada uma delas, a começar pela mais interativa.

 

2. Uma escola interativa

Uma escola construída há três décadas pela mobilização da população em um bairro próximo a área central, mas localizada numa região de menor valorização imobiliária. A necessidade de o bairro ter o seu próprio ginásio (o 2º da cidade) fez com que a comunidade organizasse campanhas de doação de tijolos, matérias de construção e até mesmo mão-de-obra em forma de mutirão. Esse propósito foi se realizando pouco a pouco e materializando-se num desenho arquitetônico bastante simples, mas bem apropriado e muito adequado ao nível de construções existentes no bairro, pois é desprovida de fachada, não tem portais monumentais, nem granitos reluzentes, tudo muito simples e bem integrado ao ambiente local.

Cadeado, grades, cercas não existem, só um trecho de alambrados na parte próxima às duas quadras de esporte e na quadra de areia, apenas com a função exclusiva de conter a saída de bolas para a rua. O portão principal fica aberto o tempo todo, sendo controlado por uma inspetora de alunos que, além da função de recepcionista, desempenha concomitantemente a também a função de telefonista, atendendo e encaminhando todos os que procuram pela escola. No terreno restante da escola, pequenas construções foram edificadas como sala de professores, biblioteca, refeitório, depósitos, sala de material de educação física, sem muito critério, obedecendo mais às necessidades e precariedade de recursos do que a um planejamento racional de ocupação, mas nenhuma grade, portão ou cadeado cerceia a liberdade dos alunos por entre elas, permitindo transitar por toda a área da escola.

Essas pequenas edificações extras foram necessárias para incorporar todas as dependências físicas existentes para salas de aulas para atender a grande procura nos três períodos,  ensino fundamental durante o dia e ensino médio no período noturno.

O processo técnico de reorganização racional da rede pública de ensino, ou os novos padrões de gerenciamento administrativo-financeiro (racionalidade técnica imposta pelos governos da social-democracia) não provocou grandes mutilações no contingente de escolares dessa comunidade, redistribuindo apenas os alunos das séries iniciais do ensino fundamental que passaram a estudar numa “escola recentemente municipalizada” distante apenas um quarteirão, ao mesmo tempo em que recebeu os alunos ingressantes no ‘ciclo II’ do ensino fundamental dessa mesma escola.

Caracteriza-se como escola aberta e dinâmica em sua programação, envolvendo-se em todos os concursos, campanhas, certames e projetos, tanto oficiais quanto comunitários. Não é raro ler notícias que destacam o ‘comportamento exemplar’ de seus alunos e quando isso não acontece a própria direção da escola se encarrega internamente de reconhecer e valorizar seus destaques.

Na última campanha do agasalho a nossa escola foi a que mais arrecadou de todas as instituições e clubes de serviços da cidade; até a mobília completa de uma casa foi conseguida em doação e repassada para o Fundo Social de Solidariedade do município, comenta a diretora da escola, com muito orgulho de seus aluno.

É uma escola que não se nega à comunidade, empresta as suas quadras de esporte, as suas instalações físicas em períodos de férias e recesso, seus utensílios da cozinha, seus filmes de vídeo, seu equipamento de vídeo e som para o MST., Igrejas Evangélicas, Prefeitura Municipal, para os funcionários da CESP, enfim para todos que precisam e que se responsabilizam pela sua utilização. Em contrapartida, a comunidade reciprocamente não tem negado nada para a escola, quando solicitada.

Eu sempre gosto de assinar a planilha de furtos e roubos que todos os meses encaminhamos para a Regional de Ensino, pois na nossa sempre consta: nada a declarar. E a comunidade sabe de todos os equipamentos de valor que nós temos aqui, porque constantemente emprestamos a ela. Ninguém rouba o que é seu, e a comunidade sente que a escola é dela, por isso não mexe; ajuda-nos a conservar e proteger comenta a Diretora.

Isso nos leva a admitir que a escola que na maioria das vezes não agride, não é agredida, dispensando o aparato e os equipamentos instalados e construídos para sua defesa, e que quando utilizados, a descaracteriza como educandário com reflexos no interior das salas de aula e em todo procedimento pedagógico.

Se a escola não faz uso de muros, cercas e alambrados para se proteger da invasão externa, tampouco sente necessidade desse aparato todo para manter os alunos em seu interior. Por se apresentar movimentada, num ambiente agradável e adequado às expectativas de seus jovens alunos estes não têm razão concretas para se ausentar dela.

Desde o recreio musicado com recadinhos, mostra de arte, torneios internos de esportes, excursões culturais, utilização do equipamento esportivo nos finais de semana por grupos de alunos, todas ações e projetos são desenvolvidos para mantê-los ocupados e interessados.

A solidariedade de conotação religiosa, também é incentivada, como no exemplo da campanha de uniformes usados dos alunos que não mais estudam na escola, ou dos alunos das oitavas séries e dos terceirões que tradicionalmente fazem camisetas diferentes, para serem doados aos colegas que não têm condições de adquirir. Tudo isso contribui para que ela seja uma escola vibrante, dinâmica, alegre, muito querida pelos alunos, professores e funcionários, e paradoxalmente calma.

Mas a escola acredita que só isso não basta para manter o comportamento dos alunos em níveis adequados. Professores orientadores de sala, líderes de classe, pais que fazem palestras, que acompanham os intervalos, principalmente no noturno, além de iniciativas próprias dos alunos coordenadas por professores a exemplo de um grupo organizado de alunos, com símbolos nas camisetas, fazem o trabalho de conscientização e de cobrança de atitudes corretas quanto a higiene e conservação do ambiente.

A proposta pedagógica da escola naturalmente se abriu para aceitar esse volume de atividades realizadas fora das classes, e pela intensidade e freqüência com que elas acontecem, haveria um sério comprometimento no desenvolvimento dos conteúdos curriculares se essas realizações não fossem incorporadas à proposta. Isso tem contribuído decisivamente para que os alunos, em termos de indicadores internos e externos de avaliação, apresentem melhor desempenho que os alunos da outra escola.

Quanto à direção, se não descentraliza tudo o que é possível descentralizar, compartilha ou comunica todas as decisões, desde o planejamento até a execução das empreitadas que o plano de gestão exige.

“Eu peço e valorizo muito o trabalho do grêmio que sempre é consultado, para os eventos que pretendemos realizar. O grêmio é dez”, na consideração da Diretora.

O Conselho de Escola também é consultado, assim como a Associação de Pais e Mestres, mas a diretoria do Grêmio, por estar diuturnamente presente a serviço e nos serviços da escola, e ser mais acessível, é sempre a primeira a ser consultada. Talvez seja esta uma das razões de melhor adequação do funcionamento da escola aos interesses e necessidades da faixa etária própria dessa juventude.

É uma escola onde o que realmente chama atenção e faz a diferença é o processo interno de comunicação que flui intensa e naturalmente. Todos podem conversar com a diretora, com os coordenadores, com professores, com funcionários, sendo prontamente ouvidos, em qualquer situação e lugar. A prioridade é sempre atender as pessoas - pais, alunos, gente da comunidade - interrompendo o serviço que se está fazendo, exceto quando se trata de aulas. A escola tem consciência de o quanto isso é importante para manter a seriedade de sua proposta e a confiança dos pais, e o quanto eles estão atentos e vigilantes a isso. Mesmo com intensas atividades, a escola cuida para que o horário de aulas não seja interrompido, apresentando no final do ano letivo um número reduzido de aulas a serem repostas para completar a carga horária mínima exigida para cada disciplina.

Para confirmar a prioridade ao atendimento, à disponibilidade, ao diálogo e à informação, registramos os fatos ocorridos durante duas horas no período da manhã, na rotina de trabalho da vice-diretora, no dia 16 de fevereiro de 2000, momento em que era a responsável por toda a escola, pois neste dia a diretora faria os períodos da tarde e da noite:

1.        atendimento ao professor LC – que veio oferecer a sua disponibilidade para o horário das aulas de matemática;

2.        aluno da sexta série reclamando que seu boné com a inscrição “Jesus 100%”, presenteado por sua mãe, moradora em São Paulo, em seu aniversário de dez anos, sumiu da sala de aula;

3.        aluno Paulo Henrique, de uma quinta série, veio entregar a doação de pequena quantidade de papel sulfite e estêncil, para ajudar a escola;

4.        visita do presidente do Conselho Tutelar, disponibilizando-se para realização de palestras para pais, enfocando “o dever dos pais em matricular e acompanhar a freqüência escolar dos filhos - previsto no artigo 55 do Estatuto da Criança e do Adolescente e artigo 246 do Código Penal, como abandono intelectual”, assim como para acompanhar o caso de um aluno que precisava de ajuda, por estar sendo estigmatizado pela avó;

5.        alunas de uma sexta série tentando localizar o local de inscrição para o concurso de dança de rua, anunciado nos cartazes afixados nos murais externos;

6.        LD., avó do aluno Wesley, justificando que o garoto vive com ela, pois a mãe mora com outro homem e ela sobrevive de parcas rendas e não pode comprar a camiseta de uniforme que custa seis reais;

7.        os alunos Luiz Henrique, Fernando, Bruno e Rodrigo, de uma sexta série, solicitando autorização para utilização de uma das quadras de esporte no sábado próximo, para um jogo de futebol de salão;

8.        Renato, Waldir e Gilmar, de uma sétima série, solicitando também autorização para usar a outra quadra de esportes, no sábado à tarde;

9.        a professora MJ., perguntando se os livros do Programa Nacional do Livro Didático estavam disponíveis para utilização de seus alunos;

10.    grupo de alunos solicitando a bola e autorização para usar a quadra de esporte, no espaço de uma aula vaga, em virtude de o professor estar participando da seção de atribuição de aulas excedentes;

11.    Rodrigo e Paula, alunos de uma quinta série, comunicando que não têm uniformes, nem dinheiro para comprar porque o pai está desempregado há muito tempo;

12.    Vitor Hugo, solicitando remanejamento do período noturno para o diurno, pois os pais são separados e ele mora com a avó que no momento fica sozinha durante a noite;

13.    Léo, presidente do Grêmio, por duas gestões, procurando a chave da sala de informática onde atua como monitor;

14.    mãe de aluno solicitando autorização para levar o seu filho ao médico, pois só havia conseguido marcar consulta no PAM- Pronto Atendimento Municipal, naquele horário;

15.    Paulo, aluno do 3º ano do ensino médio, integrante da diretoria do Grêmio, solicitando requisição para comprar tomadas de energia elétrica para as salas de aula, e se dispondo a trocá-las, pois fez o curso técnico de eletricista instalador;

16.    Edna, inspetora de aluno e telefonista, pedindo uma cartolina para fazer um cartaz com o nome dos professores orientadores de classe, que deverão organizar a eleição entre os alunos para a escolha de líder e vice-líder de cada classe.

17.    dois policiais civis investigando se determinado aluno estuda nessa escola.

Infelizmente esse era o último dos 30 dias do “breve reinado” dessa professora na função de vice-diretora. Perfeitamente identificada com os propósitos e com a história da escola, pois nela estudou como aluna e há 17 anos trabalha como professora, mas, mesmo assim sentia-se impotente e insegura para dar conta da complexidade da escola.

“Você trabalha intensamente o dia todo..., é muito trabalho, não dá tempo para nada, e quando chega em casa, o telefone toca da escola com problemas para resolver”, comenta ela.

Conceituada professora de matemática, bem aceita por seus pares, há muitos anos elabora o horário de aulas e sempre contentando a todos, preferia dar a sua colaboração no interior das salas de aula onde encontra mais satisfação e, consequentemente maior nível de realização profissional.

Essa escola foi uma das que representou o Estado de S. Paulo num certame nacional que avaliou gestão participativa – gestão pedagógica – gestão de pessoas – gestão de apoio, recursos físicos e financeiros e gestão de resultados.

Esse destaque indica que a escola atendeu aos quesitos propostos pelos avaliadores dos organismos centrais, que buscam com esse intento encontrar “experiências bem sucedidas” para servir de exemplos a outras escolas e também para a confirmação de que o modelo de gestão proposto, em alguns casos e sob a sua ótica, começam a se viabilizar.

Nesse caso, acreditamos que experiências bem sucedidas devem ser divulgadas como forma de mostrar que “alguém está conseguindo trilhar algum caminho melhor, ou encontrou um jeito mais seguro de caminhar”, mas deve-se evitar aplicar o mesmo modelo em outro contexto culturalmente diferente. Ao invés de reproduzi-lo, adequando-o ou adaptando-o, seria mais proveitoso ouvir a voz da comunidade e junto a ela, e por ela, construir um modelo próprio.

O destaque não deixa de ser importante para a escola, porque revela e reconhece o o trabalho desenvolvido, se bem que num certo direcionamento. Mas é interessante lembrar que o nível de interação, premiado administrativamente, ainda pouco representa em termos de algum nível concreto e efetivo de mudanças.

Entendemos que esse processo de interação deve-se muito mais às facilidades de diálogo e de informações voluntariamente disseminadas pela direção às instituições auxiliares e, principalmente, pela capacidade histórica de organização, pressão e mobilização dessa comunidade para ter o seu ginásio, do que as estratégias ou artifícios da burocracia do sistema.

 

3. Uma escola pouco interativa

Construída há seis décadas no centro da cidade, por “obra e graça do governo do Estado”, em arquitetura suntuosa para a época, com dois pavilhões de dois pisos cada, exclusivos para salas de aula e mais dependências administrativas e de apoio, além de enorme pátio, tudo isso edificado em um vasto terreno, fizeram durante um certo tempo que alunos e professores se orgulhassem dela pertencer.

Quando a cidade era pouco povoada possibilitava a essa escola atender a toda demanda sem distinção e até mesmo alunos de municípios circunvizinhos, mas, com o aumento populacional provocado pelo crescimento da periferia as áreas nobres foram ficando restritas às pessoas de maior nível de renda que durante muito tempo constituíram a clientela privilegiada dessa escola.

Caracterizada como escola da população do centro do município, integrava-se e entregava-se perfeitamente a essa proposta numa convivência pacífica exigindo ordem, disciplina e asseio a quem nela quisesse permanecer. Novos tempos, novas políticas públicas, novo perfil da população, alteraram  a ordem reinante por décadas nesse educandário.

Com o processo técnico de reorganização e racionalização da rede pública de ensino, que prioriza a relação custo-benefício, a racionalização técnica e os novos padrões de gerenciamento, as “escolas reorganizadas” passaram a atender especificamente uma faixa etária de crianças e outra de jovens, transformando-se em escolas de ensino fundamental ‘ciclo I’ (as fatias do sistema estadual que foram ofertadas para o processo de municipalização), ensino fundamental ‘ciclo II’ e escolas exclusivas de ensino médio.

Em virtude desse violento e doloroso processo de mutilação nesses organismos sociais, esta escola deixou de atender exclusivamente a população estudantil em seu entorno, com valores e hábitos bem coerentes à sua proposta, e passou a atender jovens de outros bairros distantes com padrões culturais e sociais bem diferenciados. Isso ocasionou intensas dificuldades de convivência e entendimento. Não resta dúvida de que a escola em mais de meio século de história construiu, no âmbito de sua territorialidade, certa hegemonia cultural que a autorizava a existir com determinada identidade, que num certo sentido redundava em um funcionamento harmônico e regulado e que a burocracia estatal não respeitou. Os ferimentos foram profundos e a assimilação das partes dos órgãos transplantados demoram a cicatrizar, sempre deixando marcas.

Esse motivo muitas vezes é utilizado para justificar a postura da estreita abertura que essa escola mantém com a comunidade; talvez ela se fecha em atitude de defesa.

Mas não é o único motivo, nem tampouco o mais importante.

Outros motivos são mais relevantes, como por exemplo, o fechamento físico interno da escola, esse o mais importante deles, pois nos indica que procedimentos e estratégias pedagógicas que teoricamente têm a função de manter os alunos motivados e interessados do lado de dentro da escola, não estão sendo eficazmente utilizados ou ainda, estão desatualizados ou em processo de falência e com eles a escola e seus atores. E aí medidas repressivas ocupam os espaços das medidas educativas. Ironicamente isto acontece no momento em que é solicitado, às instituições que cuidam especificamente de menores com comportamento desviante, que substituam procedimentos repressivos por pedagógicos. A Promotoria Pública, o Conselho Tutelar, a Polícia Militar comparecem, e sob o peso da lei, convencem os pais a se empenharem no controle da freqüência regular de seus filhos à escola, mesmo que por coerção e não por decisão, livre e espontânea, afastando-se do conceito de educação para a liberdade e para a autonomia.

Acreditamos que tais medidas têm um lado interessante, pois nos levam a concluir que a sociedade acredita na escola, ou não dispõe de nenhuma outra instituição capaz de socializar convenientemente e informar atualizadamente as novas gerações, notadamente as pertencentes às camadas mais populares. Crianças carentes, de famílias desestruturadas, encontram na rua condições propícias para a delinqüência e, é tudo o que a sociedade política explicitamente não aceita, porque estaria admitindo com isso seu próprio fracasso. Por outro lado, desconsiderando ou desconhecendo as dificuldades que a escola enfrenta para dar conta de sua função específica, empurram para o seu interior as conseqüências e as vítimas maiores (menores, antes ingênuos e puros, hoje degradados e desumanizados)[1] desse processo injusto de crescimento econômico em acelerada fase de expansão mundial.

E com isso, mais uma vez a escola é convocada para dissimular ideologicamente as mazelas inconseqüentes deste sistema progressivo de exclusão.

Nessa escola a arquitetura foi bem planejada, distribuída amplamente por todo o terreno, com vastas áreas entre pavilhões, para servir ao fluxo de alunos, para que pudessem exercitar a sensação de liberdade tão própria da juventude. Mas grades enormes, portões e cadeados foram instalados pela direção da escola, roubando e inutilizando esses espaços e debitando a conta dessas decisões ao item segurança para os alunos. Até o acesso às quadras de esporte é fechado, permitido apenas aos alunos enquanto em aula de educação física.

Durante os intervalos os alunos ficam praticamente confinados ao pátio coberto, intensamente povoado nesse momento, o que provoca trombadas, esbarrões, destratos, enfim, muita confusão. A continuar essa obsessão e se nada for feito para contrariar essa tendência é bem provável que as grades e os cadeados logo chegarão às portas dos pavilhões e das salas de aulas.

O fechamento físico externo da escola torna-a semelhante em aparência aos presídios de segurança máxima, tão comum nessa região, com muros altos, grades, cadeados, alambrados e cercas de arame farpado. Sobre o muro de tijolos (já aumentado mais de uma vez) se colocou alambrado e mais uma cerca de arame, numa postura ostensiva de defesa a indicar:

        contra-ataque como revide, de quem sofreu antes, alguma forma de agressão simbólica ou explícita;

        a contenção da presença física pela ausência de qualquer nível de satisfação em estar e/ou permanecer num espaço de convivência pouco propício ao desenvolvimento de personalidades livres;

        a situação de penúria, indignidade e violência a que têm sido submetidas as classes populares em função das políticas econômicas mundializadas;

        ou a somatória de todas as causas.

Soma-se a isso o fechamento pedagógico com propostas e procedimentos insensíveis aos níveis de interesses dos alunos sem mesmo oferecer qualquer alternativa de soluções aos problemas enfrentados por eles, não emprestando significado às suas existências nem históricas e nem utópicas, consolidando assim a sensação de impotência face as patologias sociais e a resignação diante dos modelos adrede construídos.

Tão violento quanto o fechamento físico, o fechamento pedagógico é muito mais perverso, porque fecha as mentes, liquida com as possibilidades e com elas as expectativas de mudanças, condenando muitos ao imobilismo estéril, que a poucos interessa.

Acrescenta-se ainda a centralização administrativa, essa sim, talvez a mais fácil de ser assimilada, pois torna confortável e cômoda a posição dos hierarquicamente ‘comandados’. Por outro lado, é a mais difícil de ser enfrentada porque implica em conhecer o que lhe é intencionalmente negado, a consciência das informações e do desenvolvimento do processo, sem o quê as possíveis tentativas de interferências podem mostrar-se imprecisas, inoportunas ou descontextualizadas. Ações mal colocadas indicam falta de objetividade de propósitos e tendem a enfraquecer os seus propositores, levando à descaracterização das intenções de mudanças, podendo ser utilizado, em termos de reação, como tentativa de estabelecer a confusão e desestabilização.

Além do mais, ela não é ilegal, não contraria o que está estatuído e nem mesmo os padrões culturais, porque nossa história tem se constituído desde o início e pelo decorrer dos séculos na história da centralização exacerbada de nossas instituições, defendida e mantida religiosa e militarmente.

Sabemos também que centralismo e autoritarismo são irmãos xifópagos, filhos prediletos da exclusão das maiorias para a inclusão das minorias, crescem e se fortalecem em épocas de exceção e se propagam com fertilidade incrível por todo tempo e em todos os lugares.

Pois bem, ambientes com essas características não servem para o desenvolvimento de propostas pedagógicas democráticas e populares comprometidas com os ideais de humanização do processo social, muito embora o que está escrito afirma a intenção; mas esses documentos refletem intenções e não compromissos, mesmo porque, na sua elaboração, o que é de construção coletiva foi muito restrito, atendo-se apenas às formalidades das exigências legais.

Pela inexistência do coletivo e do sentido de comunidade, as interações entre as pessoas se processam pautadas nos limites de cada papel social individualizado, sem nenhum nível de transposição. Cada qual cumpre estritamente as suas tarefas, e a somatória de todas não forma o todo como, provavelmente, os dirigentes são capazes de supor. Cumprem atribuições um tanto obsoletas, elaboradas para os diversos funcionários exercerem o controle de um alunado que hoje apresenta outro perfil, outro nível de carências e principalmente outras expectativas. É preciso, por exemplo, mais inspetores de alunos - o módulo das escolas também está defasado - com melhores salários e condições de trabalho, mas fundamentalmente com atribuições atualizadas às necessidades da comunidade que atenderão. É necessário também que todos tenham consciência e compromisso na concretização de um projeto maior, o projeto da coletividade escolar.

São urgentes acordos para pôr fim às agressões mútuas, mas eles só acontecerão por negociações, tendo de um lado a comunidade intra e do outro a comunidade extra-escolar, e na mediação o bom senso, a tolerância e a sensibilidade social num só discurso polifônico. Reforço nas medidas repressivas, e investimento na estrutura física ou equipamentos de segurança só elevará a qualidade do enfrentamento.

Escola feia, escola triste, “escola nervosa”, escola de ninguém, na opinião de alunos, onde há professores que não agüentam mais os alunos, e estes não aturam mais determinados professores, e por isso, não é raro encontrar aluno fora da sala de aula, mas tentando permanecer na escola, quando é possível. Isso nos remete ao entendimento de que os espaços interiores da escola e exteriores às salas de aula se constituem em cenários dos poucos momentos de interações, de encontros, de trocas de idéias e sentimentos e da elaboração, construção ou socialização dos projetos utópicos da juventude, tão necessários, mas tão pouco alentados.

Que outra função mais nobre seria reservada para a instituição escolar no tempo presente e futuro, onde as transmissões dos conhecimentos historicamente acumulados e atualizados possam se processar também em outras instituições e talvez até com mais eficácia, que não a de espaços férteis de encontros para a edificação de projetos futuros das gerações novas, sob os olhares críticos, humanistas e dignos de educadores de verdade?

De certa forma a observação de que há muitos alunos que gostam da escola, mas detestam a sala de aula, se confirma. Fosse a escola em sua totalidade um único espaço propício e agradável de convivência e a sala de aula um segmento desse todo, o aluno por certo seria mais integrado e ajustado, portanto, mais afeito ao processo educativo. E isso passa por abrir a proposta pedagógica e o processo de gestão e ouvir e aceitar o que todos da comunidade escolar provavelmente têm a dizer.

 

4. Presença na Escola

Por informações dessas diretoras de escolas, dos membros das instituições auxiliares e do Conselho Tutelar, ficou patente a idéia de que “participação”, para essas pessoas, é presença física de pais nas escolas para auxiliar na conservação, manutenção e ampliação da estrutura e de recursos materiais da escola, assim como para colaborar nas dificuldades que a escola tem, como é o caso da indisciplina, da violência e da falta de respeito de alguns alunos para com seus professores e funcionários, considerando os padrões tradicionais de convivência.

A “participação” acontece tanto formal nas reuniões das instituições auxiliares, quanto informalmente, quando os pais solicitados aparecem na escola para prestar serviços e, é muito mais freqüente entre pais de alunos das séries iniciais, sendo a mãe a figura mais presente, mas avós e tios são presenças também freqüentes, em virtude de famílias desestruturadas pela separação dos pais, ou porque trabalham fora do município ou são sentenciados.

Os pais que dispõem de tempo e têm certo poder aquisitivo e uma escolaridade razoável situada entre o fundamental e o médio, participam mais formalmente, têm voz e assumem cargos; o que não acontece com os pais mais humildes, fora desse perfil, que pouco podem estar presentes e que, quando isso acontece, não têm voz e nem disposição para ocupar cargos, numa nítida constatação de resignação diante do processo crônico de exclusão.

A presença dos pais na escola é justificada pela intenção de ter uma escola melhor, mais organizada e segura para seus filhos, e que eles tenham boas companhias em bons ambientes longe das drogas e dos maus costumes.

“A falta de interação traz enorme prejuízo para as crianças, pois elas percebem que seus pais desligaram”, na fala de uma diretora.

A criança tem que sentir que está sendo acompanhada, mesmo que seus pais não saibam ler bem, mas só pelo fato de pegar o caderno e ver o que o filho fez naquele dia e acompanhar seu desenvolvimento, incentivando-o, a criança vai se manter interessada e motivada à aprender. (depoimento da mesma diretora)

A presença dos pais não aumenta ainda mais porque falta à direção das escolas incutir na cabeça deles, a necessidade de participar, pois a escola nunca foi tão aberta como agora. (depoimento de outra diretora)

Todos acreditam que os esforços dos pais em melhorar as escolas, cooperando tanto na conservação da estrutura física como no aspecto disciplinar, reflete beneficamente no interior das salas de aula, pois até por reciprocidade os professores se preocupam em melhorar seus procedimentos pedagógicos, diversificando, dinamizando, atualizando suas aulas e projetos; e também as próprias escolas sentem-se na obrigação de promover muito mais atividades extra-classes para seus alunos, mostrando aos pais que estão empenhadas.

No início determinados professores se sentiram vigiados, cobrados, mas depois isso se transformou em nível de consciência. Os pais já comentam com a direção o trabalho dos professores, mas ainda é uma avaliação baseada em aspectos emocionais e na verificação da pontualidade e freqüência dos professores nas atividades curriculares.

Admitem que a presença dos pais na escola possa ser geradora de mudanças de comportamentos, porque os filhos, assistindo ao exemplo vivo dos pais, tornam-se também mais interativos e solidários.

 

Considerações:

Não notamos nenhum sinal de proposição de uma nova escola neste estudo; alguns têm como referência a escola do passado, a escola do seu tempo, muito embora outros concordem com o tipo de escola proposto pelas organizações centrais, desde que melhor organizada e mais disciplinada, enfim melhor caracterizada como escola dentro do padrão de referência conhecido. Não tem a menor consciência de que elas, como estão organizadas, ainda são intencionalizadas para educar exclusivamente objetivando atender à sociedade do trabalho, que na forma como é concebido não existe mais para todos, só para alguns, os bens sucedidos na competitiva batalha pelo ingresso no seletivo e cada vez mais explorado mercado de mão-de-obra.

Na verdade, o que a burocracia central pretende é que o sistema de ensino utilize toda sua potencialidade para propiciar, numa ponta, uma parcela reduzida e classificada de competentes profissionais, e na outra, enorme contingente de pessoas conformadas de que a solução passa pela adoção do auto-emprego ou pela servidão. E atendendo a essa intenção, a escola mais uma vez, sempre anunciada como solução para o estreitamente da desigualdade (equalização social) contraditoriamente nessa lógica, será induzida a se colocar a serviço do processo de seleção e exclusão.

Muito embora a presença dos familiares e dos membros da comunidade na escola é entendida pela administração do ensino como “participação” nesse caso pesquisado e sob o olhar da Nova Sociologia da Educação trata-se mesmo, em ambas as escolas, apenas de processo de “interação social” de viés funcionalista (educação é concebida como processo de socialização, adequação de comportamento para servir a uma dada sociedade), interacionista simbólico (cuja preocupação é muito menos conhecer as causas que dão origem ao comportamento “desviante” ou “delinqüente” e muito mais explicar como alguém pode ser rotulado ou estigmatizado por outros, e como a área judicial e escolar deve se portar diante de tais situações) e até mesmo fenomenológico. Esta última corrente é criticada por permanecer num nível puramente descritivo que evidência como determinadas significações são socialmente construídas, mas não elucida porque essas e não outras significações se constroem e se mantém.

Enfim a interação pode tornar as instituições sociais mais fortalecidas pela integração mais efetiva de seus atores, mas não propõe e nem pode propor outras possibilidades. O modelo adrede preparado se mantém em sua estrutura organizacional e pela interação dos participantes consegue fortalecer a mesma hegemonia dominante.

Mas acredito que nesse estudo é possível admitir que a existência de processos intensos de interação possam se constituir em estágios preliminares de participação política se houver a presença e a mobilização mediadora de intelectuais orgânicos, no sentido gramsciniano, atuando na organização da sociedade civil, na pretensão de uma nova ordem hegemônica.

 

 

Bibliografia

 

BANCO MUNDIAL.  Prioridades y estrategias para la educación.  Versão preliminar. 1995.

BARROSO, J. O estudo da escola.  Portugal: Porto Editora Ltda. 1996.

BRANDÃO, C. R. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 1995.

FORACCHI, M. M., PEREIRA, L. Educação e sociedade.  SãoPaulo: Companhia Editora Nacional, 1973.

FORQUIN, J.C. (org) Sociologia da Educação: dez anos de pesquisa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

LIMA, L. C., AFONSO, A. J. Participação discente e socialização normativa.  Aprender, v. 11, 1990.

LÜDKE, M., ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: Abordagens Qualitativas.  São Paulo: EPU, 1986.

PINTO, J. M. R. Administração e liberdade: um estudo do Conselho de Escola à luz da teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas.  Rio de Janeiro: Tempos Brasileiros 1996.

SEMERARO, G. Gramsci e a sociedade civil: cultura e educação para a democracia.  Petrópolis: Vozes, 1999.

SINGER, P. Poder, política e educação.  Revista Brasileira de Educação, n. 1, 1996.

TOMMASI, L., WARDE, M. J., HADDAD, S. (Orgs.)  O Banco Mundial e a políticas educacionais. São Paulo: Cortez, 1996.

ZIBAS, D. M. L., FRANCO, M. L.., WARDE, M. J. (Orgs.) Caderno de Pesquisa, n. 100 Globalização e políticas educacionais na América Latina.  São Paulo: Cortez, 1997.

 

 

 



[1] Em nenhuma hipótese a escola pública, que pretende ser democrática, deve estabelecer limites ou condições para o acesso dessas crianças e jovens, mas, “oriundas de famílias desestruturadas em escolas descaracterizadas” (linguagem jurídica da região), elas não têm encontrado a atenção e a assistência de que necessitam, pois na maioria das vezes a escola não se mostra receptiva nem competente por não dispor de condições estruturais, que independe de sua vontade e nem políticas internas que depende.

 

VOLTAR