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RESENHA

Âncora de emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades

Ref.: MATOS, Maria Izilda Santos de. São Paulo: Edusc, 2005, 182p.

 

Ana Paula dos SANTOS

Mestre em História pela UEM - Universidade Estadual de Maringá

Docente da Rede Estadual do Mato Grosso do Sul

Docente de História da Educação/Conteúdos e Métodos de História da FIAMA – Faculdade de Amambai

E-mail: apguaira@yahoo.com.br

 

 

É cada vez mais evidente a inquietação pela composição de uma História que possibilite a recuperação de experiências históricas frequentemente negligenciadas e, por vezes, esquecidas na escrita da História. Percorrer por esse caminho configura - se em uma tarefa ambiciosa e, por certo, complexa. Ancora de emoções, de Maria Izilda Santos de Matos, é um bom exemplo da prática investigatória que se constitui com esse intuito. Seja por seu caráter cientifico, ou mesmo, pela forma como a autora analisa o passado em busca de múltiplas experiências “ausentes”, a obra em muito contribui para o exercício da reflexão na pesquisa histórica que anseia o propósito de recompor experiências e modos de viver que ficaram a margem em certas narrativa históricas.

Esta talvez venha a ser uma das propostas centrais da obra, que contém em si duas partes, - três se, merecidamente contarmos a introdução. O trabalho é resultado de longos anos de pesquisa onde se entrecruzam fontes médicas e musicais, que na aguçada análise realizada, permitem com que a autora desvende o passado e reflita já na introdução, extremamente reveladora da sua solidez teórica e da sintonia que entretém com as temáticas, sobre gênero, masculinidade, subjetividade, sensibilidades, música e História.

O livro traz a luz considerações acerca das trilhas renovadoras, tão presente na produção historiográfica nos dias de hoje. Desse modo, nos momentos iniciais da leitura, onde um balanço dessa produção é realizado, é possível ir percorrendo as trilhas de uma perspectiva histórica que possibilitou a ampliação do saber histórico e a recuperação de experiências pouco abordada pela historiografia.

Como observa Maria Izilda, esse novo olhar historiográfico deu visibilidades a novos sujeitos sociais e, como reconhece, favoreceu a inclusão das mulheres na pesquisa histórica. Todavia uma ressalva é feita, uma vez que, grande parte desta produção veio a privilegiar o enfoque das experiências femininas em detrimentos do seu universo de relações com o mundo masculino. Neste sentido, assinala a autora, que mesmo tendo ocorrido uma ampla produção nos estudos do gênero, ainda são escassos os estudos que se volte à história dos movimentos feministas, bem como, a produção historiográfica brasileira sobre o masculino. No dizer de Maria Izilda,

 resta a preocupação em desfazer as noções “abstratas” de homem como identidade única, ahistórica e essencialista, e buscar as masculinidades como múltiplas, mutantes e diferenciadas”. Nesse sentido, se coloca para o historiador a tarefa de desnaturalizar as diferenças, considerando “as percepções sobre o masculino e feminino como dependentes e constituintes às relações culturais, procurando não essencializar sentimentos, posturas e modos de ser e viver de ambos os sexos”.

 O itinerário do livro, no primeiro capítulo: Delineando corpos: o feminino, o masculino e suas relações nos discursos médicos - São Paulo 1890-1930, possibilita perceber as representações, formuladas pela medicina, entre o final do século XIX e início do século XX, sobre os corpos feminino e masculino. Como evidencia a autora, não foram apenas os espaços físicos da urbe paulista e carioca que foram pensados e planejados para serem modificados naquele contexto, ao contrário, junto com a intensa urbanização que ocorria, o viver dos moradores, homens e mulheres, também sofriam modificações e imposições. Corpos, sensibilidades, sentimentos, precisaram e foram “produtos” analisados pela medicina, que fundamentando - se na cientificidade, buscou padronizar novos valores.  Deste modo, utilizando-se de um discurso autorizado pela ciência, a medicina ousou expandir seus controles sobre homens e mulheres. Assim, na tentativa de normatizar corpos, ações, disciplinar a sociedade e ordenar a sexualidade, prescrevia-se como usar o corpo e ser um verdadeiro ser masculino e feminino, como consistir – se em “os sujeitos ideais para a nova sociedade agora civilizada e higienizada”.

Nesse contexto, como enfatiza Maria Izilda, a educação feminina tornava-se alvo central da medicina. Os saberes médicos intervinha sobre a vida feminina ditando padrões morais e éticos, que embora não fossem homogêneos, “convergiam no sentido de vincular a sexualidade ao matrimônio e a procriação”. Enfocando particularmente a família, e dentro dela a mulher, os discursos tinham por função controlar ações, difundir “verdades” definindo papéis masculinos e femininos, sempre opondo um ao outro, “mas ao mesmo tempo em que manifestavam críticas à ordem estabelecida, determinam características ideais do masculino e do feminino”.

No segundo capítulo: Sensibilidades e subjetividades: cantando dores e amores, trabalhando dentro de uma perspectiva da história das sensibilidades, a historiadora lança reflexões acerca das subjetivações de sentimentos, chamando atenção para o fato de que o processo de subjetivação é múltiplo e diferenciado para homens e mulheres. Nesse aspecto, a autora tem como intuito perceber como os valores, desejos afetivos e eróticos, expectativas e frustrações podem ser apreendidos e compreendidos nos processos de subjetivação dos sentimentos de amor/dor, e, por outro lado, como são diferentemente percebidos defendidos e sentidos.

Para esse intento, lhe servem como guia a produção musical, que surgem, por sua vez, como um corpo documental revelador e instigante da expressão de sentimentos que raramente são abordados em outros registros. Nesse sentido, para além da temática trabalhada, se destaca no capítulo a forma coerente como a autora trata a fonte documental em destaque. Mas do que trabalhar a história da música, Maria Izilda dá historicidade as canções, perpassando o propósito de fazer uma história musical linear “para discutir as tensões entre os vários aspectos, como, o artista, sua produção, estilos e movimentos musicais, circuitos culturais, boêmios e de sociabilidade, o consumos das canções, recepção e gosto musical, enquanto elementos constitutivos de diversos momentos históricos e estratégicos na construção das subjetividades”.       

Desse modo, analisando a produção musical, de maneira especial o samba - canção brasileira dos anos de 1940 e -50 de cantores como Dolores Duran, Antonio Maria, Vicente Celestino e Lupicínio Rodrigues, destaca-se como valores, desejos afetivos e eróticos a sensibilidade humana e sentimentos (amor/dor) que foram vividos, apreendidos, e, por vezes, manipulados.  

Através da análise das canções a autora desvenda aspectos marcados por percepções do cotidiano. De certa forma, Maria Izilda demonstra como a produção musical captava hábitos e valores, atitudes e contradições que ora deveriam ser copiados ora negados. Destarte, as canções aparecem ao longo do trabalho dotadas de múltiplas significações, e da complexidade dos sentimentos que são desvendados pelo olhar atento da autora. A música surge como palco em meio a um universo de representações que demonstram a capacidade do artista em captar emoções e sensibilidades presentes socialmente.  Nesse caso, as sensibilidades “são uma forma do ser no mundo e de estar no mundo, indo da percepção individual à sensibilidade partilhada”. Assim como nos discursos médicos, as canções explicitam papéis sociais e culturais sobre o feminino e masculino, ordenando e “classificando o real através de categorias que se transformaram em universais e em exemplo de objetividade e racionalidade, impondo uma ordem dualista com rígidas classificações entre o permitido e o proibido, na desqualificação de uns e na supremacia de outros”. Deste modo, em Lupicínio Rodrigues as diferenças entre os gêneros são apontadas. O feminino carregado de concepções negativas reforça e contrasta a masculinidade hegemônica.  O homem bom, trabalhador e sincero, provedor do lar, se opõe a figura feminina, a mulher ingrata, sempre culpada pelos desvios masculinos.  em Dolores Duran os ressentimentos femininos, a angustia, a dor do amor, frustrações de seu tempo, aparecem com destaque numa produção que dialoga com os anseios do momento.

Ao iniciar o livro a autora propõe-se a realizar um trabalho historiográfico em busca de emoções, corpos, sensibilidades e subjetividades em tempos dado como perdidos. E a faz com rigor teórico. Ao longo do livro a autora vai tecendo suas análises de maneira que contemple o objetivo proposto. Primeiro pela forma como demonstra a possibilidade em captar o vivido, as experiências históricas em fontes pouco utilizadas, como as canções. Assim sendo, lendo-as criticamente, vai descortinando as especificidades das sensibilidades e subjetividades presentes no social e, em segundo, porque suas reflexões nos permitem visualizar uma proposta historiográfica “desafiadora”, uma vez que, desestabiliza verdades, desfazendo versões cristalizadas, dadas como naturais. Por tudo isso, Ancora de emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades, torna-se uma leitura imprescindível para aqueles que se propõe a desvendar o passado a partir de uma perspectiva que venha a romper com silêncios impostos, desafiando, dessa forma, as noções prevalecentes.

 

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