A verdade e a
existência
Vanderson Ronaldo Teixeira
Mestrando em Filosofia, PUC-PR
Professor de
Filosofia no Ensino Médio da Rede Pública do Paraná
“O homem dirigido por conceitos e por abstrações
apenas se defende da infelicidade por meio deles sem forjar a felicidade a
partir das abstrações, aspirando à ausência de dor tanto quanto for possível, o
homem intuitivo, estando no seio de uma civilização, colhe já das intuições,
além da defesa contra o mal, uma iluminação, uma alegria e uma redenção que
jorram continuamente” (NIETZSCHE,
1997,231).
Resumo:
O presente artigo visa estabelecer uma interpretação dos textos
nietzscheanos em torno da questão da verdade, do esquecimento e da existência,
para isso, há um sobrevôo nas obras fundamentais do autor. Também se propõe a
dialogar com outras "literaturas" que possam dar sustentação e mesmo
elucidar o ponto de discussão que se tenta travar na obra do filósofo de
Sils-Maria. Essas obras de caráter filosóficos são um convite à adentrar em um
pensamento não sistêmico e avançar até a “estrutura” que se constrói no artigo,
sem perder é claro a perspectiva nietzscheana.
Palavras-chave:
Verdade; esquecimento; existência
Abstract:
This
article aims to establish an interpretation of the texts nietzscheanos around
the issue of truth, and the existence of forgetfulness, so there is a on-flight
the fundamental works of the author. It also proposes to talk to other
"literature" which may give support and even elucidate the point of
discussion which tries to hang on the work of philosopher of Sils-Maria. These
philosophical works of nature are an invitation to enter into a non-systemic
thinking and advance to the "Structure" to build in the article, it
is clear without losing the prospect nietzscheana.
Keywords: true - oblivion -
existence
Ler/interpretar Nietzsche em perspectivas, mais que isso, ler/interpretar Nietzsche pela ótica existencial, está existência entendida como afirmação, como vontade de potência e não apenas como sobrevivência, essa é tentativa dessa dissertação.
Para avaliar um projeto existencial nos escritos nietzscheanos é necessária certa castração, pois sua riqueza vai muito além do que pode um simples artigo, sua obra se desdobra e se torna inacabável, bem como o que se quer dizer a partir dela.
O que então será feito aqui é resgatar as idéias que irão possibilitar esse recorte, idéias de verdade, metáfora, tragédia, conhecimento, razão, ser, não-ser, dialética, bem como alguns filósofos que foram avaliados por Nietzsche para pensar essas idéias, como Sócrates e Platão, sumariamente.
Neste momento de apresentação serão expostos cinco recortes para incitar e orientar a discussão, sendo estes os recortes: o breve, incisivo e genial texto Acerca da verdade e da mentira em um sentido extramoral; a avaliação da Segunda consideração intempestiva (o valor da história) e Sócrates e Platão n’O nascimento da tragédia no espírito da música ou helenismo e pessimismo; Assim falou Zaratustra e Genealogia da moral.
Começo com os dizeres do ocidente cristão:
- “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
O que é a verdade e por que é que ela é útil à vida?
Para responder a essa questão é necessário compreender seu surgimento como uma necessidade ao homem.
Para o homem viver, ou melhor, existir, em seu favor desenvolveu-se o intelecto, ou seja, uma disposição impar para auxiliar esse ser fraco, limitado e infeliz que utilizará essa disposição para sua conservação através da dissimulação, uma arte que se caracteriza pela “...ilusão, a lisonja, a mentira e a fraude, o falar nas costas dos outros, o representar, o viver no brilho emprestado, o usar uma máscara, a convenção que oculta, o jogo de cena diante dos outros e de si próprios...”(NIETZSCHE, 1997, 216).
Nessa busca pela conservação, o homem que não passa de uma mentira, paradoxalmente desenvolverá um impulso à verdade, como? De onde? Se esse homem é sempre dissimulação, como a necessidade de existir lhe impôs essa tarefa? Esse impulso vem daquela noção de zoon politikon, da tentativa de evitar o “bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos) e pelo tédio que seria ter que matar um leão por dia só para se conservar, assim, para manter-se o rebanho foi sugerida como alternativa a fixação da verdade, enquanto palavra, lei. É necessário certo cuidado aqui, pois o que impele à essa busca pela verdade nos homens não é a luta contra a mentira, o que o homem que busca a verdade não aceita é ter prejuízo com o outro, essa é a tônica da discussão no impulso pela verdade, que o outro seja verdadeiro enquanto não me prejudique, apenas e tão somente nesse caso.
Suponha-se que estivéssemos diante de um grande mostruário, onde todas as verdades estivessem expostas, o homem de rebanho escolheria nas estantes apenas aquelas verdades que conservariam a sua vida, para ele de nada valem uma verdade pura; de que me adianta saber tautologias (invólucros vazios) como a que diz que o que é, é e o que não é, não é; perguntaria o homem e muitos entoariam o seus ditos.
Entretanto, mesmo essa suposta verdade que conserva a vida, qual é o seu estatuto ontológico, melhor dizendo, qual sua validade?
Nietzsche mostrará aqui que essa tal verdade não passa de convenção, designações de coisas, expressões da realidade, que só atribuímos verdade porque deixamos de lado uma infinidade de pequenos detalhes para aceitarmos e nos acertarmos, ou seja, a verdade que sempre é expressa por uma língua tem que suprimir as nuances para que seja comunicável e entendida, constituída da seguinte maneira:
- Tem-se a palavra que não passa de uma representação sonora de um estímulo nervoso, que não traz nenhuma universalidade, pois esse estímulo provoca subjetivamente uma reação, daí...
A primeira metáfora que não é nada mais que uma estimulação nervosa traduzida em imagem e a segunda metáfora que é a imagem transformada em som, mas que em nenhum desses momentos, sejam palavras ou metáforas, atingem ou correspondem a essência da coisa; e se não é a coisa, como falar em verdade?
Desta forma, línguas, que são palavras e metáforas são sempre imposições arbitrárias e desprovidas de fundamentos, só que mesmo nessa arbitrariedade, vemos surgir os conceitos, baseados na noção de esquecimento dos pormenores, temos sua breve definição como uma “igualização do não igual”, essa apreensão subjetiva, que os conceitos expressam em formas, gêneros são sempre construções que só valem e só fazem sentido para o homem, num dito, construções antropomórficas.
Verdade para Nietzsche é:
“um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal” (NIETZSCHE, 1997, 221).
O que então garante o sucesso desse impulso à verdade é a mentira coletiva, em convenção, mais que isso, por uma relação ternária – razão, esquema, conceito - criam-se regularidades, rigor, leis e limitações, contra aquilo que era particular, individual, que é a metáfora, que não passa de impressões intuitivas, o que por não garantir nada, é abandonada pelo ‘construtor de conceitos’, este que se esqueceu também de onde ele origina-se, sim! daquele passado metafórico, intuitivo, numa palavra, artístico.
O que se tem aqui é uma brincadeira mais ou menos como o que desenho é este? Digo isto porque, a verdade no esquema da razão, cria um conceito (desenho) e daí sai para a realidade para encontrá-lo, conforme esclarece Nietzsche quando fala do “gênio construtor” como o que constrói de si mesmo os conceitos que o permitirão compreender o mundo.
O homem não só cria conceitos, como também cria sua existência, e ela só tem determinado interesse quando conseguimos esquecer uma infinidade de regularidades e leis que o esquematismo da razão e também da história (conforme veremos) nos impõe.
O mundo aparente é completamente diferente da essência que lhe imputamos, isso deve ficar claro, pois o que Nietzsche aponta é para uma desnecessidade tanto das causalidades quanto das metáforas, que são imposições arbitrárias e que não possuem validade universal, as relações tempo/espaço, sucessão/número, rigor e etc. são atribuições que damos ao mundo para compreendê-los, lembrem-se de Kant.
Pela linguagem, portanto, o homem cria os conceitos e os conceitos constroem a ciência, nosso porto seguro, ou como melhor dirá Nietzsche:
-“O homem ao agir liga a sua vida à razão e ao conceitos desta para não ser arrastado e não se perder a si próprio, o investigador constrói a sua cabana mesmo ao pé da torre da ciência para ajudar na sua construção e para encontrar proteção para si debaixo do baluarte, já existente” (NIETZSCHE, 1997, 228).
Diante desse panorama, a existência parece perder seu sentido, se é que há sentido, dito de outra forma, recorta-se um pedaço da existência e aprisiona-o as grades dos conceitos e ensina-lhe como existir e ser no e de acordo com o conceito.
Mas, e a parte restante que sobrou desse recorte da vida (existência)?
Será que há uma possibilidade de um outro impulso, que não seja para o conceito (verdade) e que ofereça uma fatia maior e mais livre de existência ao homem?
Sim, há! Nietzsche diz haver um impulso básico, que não se mede por um interesse de não ser enganado ou algo que o valha, o impulso à metáfora, manifesto através do mito e da arte, os quais muitas vezes são rejeitados por serem palavras mudas, metáforas proibidas, mas que se colocam para o existir, frente-a-frente com o existir-conceitual.
Surge então, por um lado intuições que criam, zombam, são intensas, desesperadoras e vivas contra os conceitos (razão) serenos, ponderados e indiferentes (zumbis) por outro e, nesse embate onde ambos querem dominar a vida, o homem conceitual (racional) pela preservação, evita toda dor através de abstrações e o homem metafórico (intuitivo) pela arte, pela beleza, na mais completa característica do “herói felicíssimo que não vê as necessidades e apenas considera como real a vida dissimulada sob uma aparência de beleza”(NIETZSCHE, 1997, 231), sempre brincando com os conceitos, com a razão, com a verdade e principalmente com a vida.
2. SÓCRATES E A EXISTÊNCIA
O primeiro exemplo de
homem-conceitual, homem teórico que Nietzsche tratará é Sócrates, nos aforismos
(capítulos) 13-15 d’O nascimento da
tragédia ou helenismo e pessimismo (1872), lembrando que o intuito aqui é
um resgate sempre numa interpretação e leitura em uma perspectiva existencial.
Conta a história da filosofia que ao receber do oráculo de Delfos a indicação de que era o homem mais sábio entre os gregos, Sócrates saiu em busca dos outros sábios que havia em Atenas, pois sua sabedoria restringia-se a famosa frase “só sei que nada sei”, assim nessa sua procura viu que o existente era aparência e ilusão, entendendo que sua missão seria corrigir essa incompreensão dos homens (crentes no aparente) para tal labor elegeu como seu adversário a arte trágica e os instintos, desprezando assim o maravilhoso mundo grego de sua época.
Em sua empreitada Sócrates negará o grego, como diz Nietzsche, “Tu o destruíste, o belo mundo, com um poderoso punho” (NIETZSCHE, 2005, 85)
Todavia Sócrates não faz isso simplesmente por que não tem o que fazer, não, faz isso atendendo a uma voz que o dissuade, voz do que conhecemos como o daimon de Sócrates e essa voz pede para que ele conheça de forma consciente, que seja impulsionado pela lógica, que trate a sabedoria instintiva como uma anormalidade em seu ser.
Nessa atitude Sócrates inverte a noção de criação, “enquanto, em todas as pessoas produtivas, o instinto é justamente a força afirmativa, e a consciência se consciência se conduz de maneira crítica e dissuasora, em Sócrates é o instinto que se converte em crítico, a consciência em criador – uma verdadeira monstruosidade per defectum!” (NIETZSCHE, 2005, 86) e aqui está o fator decisivo nas formas existenciais dos gregos pré-socráticos e as formas existenciais pós-Sócrates.
Conforme o dito acima o homem desenvolvera um impulso à verdade e Sócrates levara essa idéia até seu limite, denunciando sempre a arte trágica com não portadora de verdade, não passando de adulação e agradabilidade, portanto devendo ser escravizada pela filosofia dialética (Platão), esse é o grande esquema lógico-apolíneo, subjugar a poesia; para isso a personagem Sócrates será construída como o herói dialético dos diálogos platônicos, sempre defendendo com a razão e contra-razão todo compaixão trágica, é o otimista que irá destruir o dionisíaco, com três máximas (virtude é saber; só se peca por ignorância e o virtuoso é o mais feliz) decretará a morte da tragédia e de uma maneira peculiar de toda existência trágica.
A existência ou será artística, quer dizer trágica ou será conceitual, quer dizer teórica, em homens isso significa: o homem teórico que está muito mais preocupado com a busca, o meio para se chegar à verdade do que propriamente com a verdade, ainda mais quando sabe que essa é pouco alcançável, se for sincero, para não dizer verdadeiro; e o artista que quer afirmar a vida independente de qualquer conceito.
Sócrates inverteu os valores da cultura grega, agora seu filosofar (dialético) é a medicina da humanidade, curando através do saber e do conhecer, pois pensar contra o instinto é conhecer e poder corrigir a causalidade do ser e está é a ocupação nobre do ser humano, ser que agora pode falar em uma sofrosyne[1], ficando então o mal em si, a aparência e o erro atributos manifestos no trágico.
Na ausência do mito o homem teórico se constituiu e tornou-se senhor, tornou-se abstrato, somente quanto o vivente conseguir compreender novamente o mito é que sua existência será ressignificada, para isso deverá surgir o ouvinte estético, contra o socrático-crítico, pois este primeiro reconstruirá o conhecimento trágico, como arte, proteção e remédio, ou melhor, pela função que é própria do mito.
Se Sócrates permanecer como a força peremptória da existência, mito e tragédia permanecerão em declínio, cabe então refletir sobre o povo e a arte, o mito e o costume, a tragédia e o Estado, para que uma nova existência seja possível, agora mais clara e menos conceitual e que evite todo peso que a História tenta à maneira socrática lhe incutir.
3. HISTÓRIA E EXISTÊNCIA
Apresentadas a verdade e Sócrates, como influência na forma de existir chega o momento de perguntar qual a vantagem e a desvantagem da História para a existência?
Nietzsche compreenderá a História a partir da noção de Gedächtin (memória) para pensar o valor e o desvalor do Vergessen (esquecer), medindo-o a partir da concepção do Vergessenheit (esquecimento) ou como ele próprio diz da “faculdade do esquecimento”, que possibilitará a existência, se não mais grega, também não mais aos moldes socráticos, ou seja, ainda se quer uma existência trágica.
Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quantas vezes essas interrogações nos veio à memória e quantas vezes 'quisemos' esquecê-las para existirmos sem peso?
Quantas não são as questões, mais ainda, as ações que não merecem créditos e que se percebidas só nos angustiariam e tirariam nossa vontade de viver, de existir.
Gewissen/Bewußtsein (consciência), essas são as responsáveis por nossa falta de felicidade, essa consciência que 'tudo' assimila e que se manifesta de forma autônoma e sempre nos faz relembrarmos de algo que é entediante e indesejável. Sim, é essa consciência que nos impede de esquecer aquela insólita noite, insólita garota e nossas terríveis fraquezas; curiosamente nem mesmo nossa linguagem (expressão da consciência) consegue excluir de nossa mente aquilo que se quer negar, visto que é extremamente angustiante termos que pensar assim:
-Vou me 'esquecer' daquela garota, daquela noite e de minha fraqueza!
Contudo o homem que pelo processo mnemônico[2] chegou à consciência se sente fátuo de tal conquista.
Compreenda-se o termo consciência na Genealogia da Moral, para avaliá-lo, pois o que interessa é a leveza da ausência de percepções que nos tornam enfadonhos e melancólicos, ou seja, queremos 'esquecer'! Na citada obra, eis a maneira como Nietzsche apresenta seu conceito de consciência:
-“O orgulhoso conhecimento do privilégio extraordinário da
responsabilidade, a consciência dessa rara liberdade, desse poder sobre si
mesmo e o destino, desceu nele até sua mais íntima profundeza e tornou-se
instinto, instinto dominante – como chamará ele a esse instinto dominante,
supondo que necessite de uma palavra para ele? Mas não há dúvida: este homem
soberano o chama de sua consciência...” (Nietzsche, 1998, p. 50).
Eis a consciência, correlato direto com a sofrosyne – uma responsabilidade sobre si e sobre o destino: quanto peso!
Mais relevante aqui é também a
distinção que temos na nota 3 da Segunda dissertação – Genealogia da moral -
(feita por Paulo César de Souza) salientando a existência de dois significados
para o conceito – consciência -, a primeira notada da maneira que descreve a
citação acima, a qual Nietzsche trata como Gewissen
(consciência moral); muito embora possa-se falar dela, não é de meu interesse
uma avaliação dos conceitos que compõe a moral; fiquemos com a segunda
noção, Bewußtsein (consciência) como percepção, a faculdade de reter na
memória impressões e acioná-las pela vontade, ou conforme a nota
(NIETZSCHE,1998, p. 155): Bewußtsein
designa o estado de consciência, a percepção (significa ao pé da letra, “estar
consciente”).
Chegando na consciência ou nas consciências, posso falar do conceito de memória, melhor ainda, pergunto:
-Para que serve a Gedächtins (memória), afinal de contas, se estamos empenhados em saber o que afirma a vida?
Para fazer cumprir promessas e para compreender a natureza e dominá-la; assim poderíamos dar uma resposta breve, objetiva e extremamente relevante para o diálogo que por hora quer se projetar.
Contudo essa Gedächtins (memória) tem uma função ainda maior, tem uma função histórica ou, dito de maneira rigorosa, é pela memória que a história se constitui e se mantém para o homem, garantindo-lhe sua existência.
Aqui chega-se ao ponto para compreender a história na perspectiva nietzscheana e dela pode-se lançar o olhar para a existência.
Para nosso intento faz-se necessário reconstruir (apropriar) os conceitos que compõe a noção de história, melhor dizendo, a história a partir dos conceitos – Gedächtins (memória) e Vergessenheit (esquecimento), bem como outros possíveis conceitos que se tornem relevantes para a discussão...
Um homem de consciência, de memória traz consigo uma História, que no mínimo narrará acontecimentos de sua singela 'vida', entretanto ao olhar impiedoso de Nietzsche essa História cultivada, ou mais, mantida pela Gedächtins (memória) necessita de uma avaliação, tendo em vista que somente se servir para fazer 'feliz' é que deve-se mantê-la e/ou cultivá-la.
A História constitui-se em um exagero, um acúmulo desenfreado de informações que em quase nada propiciam a 'atividade' viva, a vivificação; sua função é ilustrativa, é a colecionadora de Gedächtins (memórias) que se nega a favor do que passou, afirmando-o; Nietzsche com esse pensamento (que estou reconstruindo e apropriando-me), pretende demonstrar que esse funcionamento da História não tem valor, visto que, não está a serviço da vida.
Delineia-se neste momento, uma preocupação com a existência, Nietzsche ao avaliar a História como desnecessária à vida, mostra que o homem inveja a existência do animal, que por um motivo “qualquer” torna-se prazerosa, não-melancólica e nem incômoda, já a sua (do homem), por 'lembrar-se' de tudo, faz-lhe sentir eternamente o peso dessa gewissen (consciência), no existir, e no final das contas sequer existe, como sentencia Nietzsche:
- O homem está preso ao que passou, sem poder esquecer (NIETZSCHE, 2003, p. 8), acrescenta-se, sem existir e sem viver.
O animal portanto vive, “ele não sabe o que é o ontem e o que é o
hoje” (NIETZSCHE, 2003, P. 30), não 'guarda' em si nada, tudo é instante,
passageiro, é a existência, conforme
Nietzsche: a-histórica (2003, p. 80); possibilitando a essa existência um valor extraordinário, isso
porque esse viver animalesco é sincero, não há dissimulação, “aparece a todo momento plenamente como o
que é!”(NIETZSCHE, 2003, p. 8), causando então inveja e admiração no homem
que não consegue portar-se como é, pois se no animal 'tudo' é Vergessenheit (esquecimento), ou melhor,
é sentido de maneira a-histórica, o
sentimento que rege o homem pauta-se no axioma: “eu me lembro” (NIETZSCHE, 2003, p. 8).
Se esse é o protótipo da vida,
não há do que se lamentar, até porque não se voltará à condição de animal,
logo, sentir historicamente é a
atitude natural do homem! Todavia, será que realmente é natural essa atitude?
Não. Nietzsche nos oferece um homem capaz dessa atitude; mas quem é esse homem?
É a criança, este ser tem seu estado de ausência de consciência, ela vive uma “bem-aventurada cegueira” (NIETZSCHE,
2003, p. 8), sem passado,
E como negá-lo?
Mediante a “faculdade de sentir a-historicamente durante a sua duração” (NIETZSCHE, 2003, p. 9), trocando em miúdos, pelo 'poder esquecer', ou seja, pela minha disposição de querer o instante e vivê-lo.
Viver esse instante, quer dizer, viver feliz e agir e 'esquecer' e ver, lembrando o poeta Fernando Pessoa – abrir-se “para a eterna novidade do mundo”[4]-, um instante que se sentido pelo Vergessenheit (esquecimento[5]) torna-me constantemente feliz; esse é o querer que Nietzsche contrapõem à 'felicidade lembrada', vinda esporadicamente e por capricho, sempre como negação de um outro ato que a Bewußtsein (consciência) já julgou e condenou.
Somente o homem dotado dessa 'força de esquecer', como a criança e o animal o são, acreditará em si e afirmará a sua existência, mesmo diante do infortúnio, do trágico.
Essa força de Vergessenheit (esquecimento) Nietzsche definirá como uma “força plástica”, uma força que “regenera, tranqüiliza, cura e transforma o passado” (2003, p. 10), para que esta sirva à vida, à existência pois essa força tem papel decisivo para uma vivência feliz, como incisivamente Nietzsche diz:
- “Portanto: é possível viver quase sem lembranças, sim, e viver feliz assim [...] mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento”! (NIETZSCHE, 2003, p. 10).
Lembrem-se das perguntas iniciais do presente ensaio:
- Quem sou? De onde vim? Para onde vou? A não resposta a essas questões, as mais filosóficas delas, evidencia essa força de esquecimento, por uma vontade de viver o instante, porque é sabido que se forem conscientes o tempo todo (as questões), não haverá ação (atitude), não haverá vivificação, pois é necessário a contemplação, a meditação, em suma, a inércia para respondê-las! E aí foi-se a vida.
Essa força plástica tem por função: saber esquecer e saber lembrar no tempo certo[6], pois esses saberes trazem vida; exatamente por isso é que filosofa-se e deixa-se de filosofar; esclarecendo, “o que uma tal natureza não subjuga ela sabe esquecer” (NIETZSCHE, 2003, p. 10). Tal força instintiva, mais que isso, orgânica (viva) nos possibilita sentir de modo histórico e de modo a-histórico e é esse dispositivo bipolar ativo que garante saúde a um homem.
Mas, qual é a ação (atitude) que me conduz à saúde e qual a ação que me conduz à debilidade, como apreendê-las para escolhê-las?
Nietzsche diz o seguinte:
- “O a-histórico é similar a uma atmosfera que nos envolve e na qual a vida se produz sozinha, para desaparecer uma vez mais com a aniquilação desta atmosfera” (NIETZSCHE, 2003, p. 12). Pois bem, a ação (atitude) que alcança saúde é sempre a-histórica, sempre cunhada pelo Vergessenheit (esquecimento), conquistada num 'horizonte limitado'[7], sem máscaras, sem reticências, sempre vigorosa, portanto útil à vida, em uma sentença: UMA EXISTÊNCIA FELIZ.
Pelo excesso de história o homem padece da ação (atitude) que o definha, que o angustia e o torna enfermo: essa ação (atitude), proferirá Nietzsche, é sempre histórica, sempre garantida pela Gedächtins (memória), conquistada num 'horizonte ilimitado' que deseja e quer acumular, mesmo que para isso perca-se a vida, “no entanto, em um excesso de história, o homem deixa novamente de ser homem, e, sem aquele invólucro do a-histórico, nunca teria começado e jamais teria ousado começar” (NIETZSCHE, 2003, p. 12), todavia não torna-se um animal e nem mesmo uma criança.
Necessário portanto, é esse invólucro que limite a ação (atitude), que aquilo que 'passou' seja requerido apenas em favor da vida, com isso, para Nietzsche “o homem se torna homem” (NIETZSCHE, 2003, p. 12).
Esse enfim é o homem que deve viver na terra, um homem que para tornar-se homem, sempre 'age', sempre “ama infinitamente mais o seu feito do que este mereceria ser amado: e os melhores feitos acontecem em meio a uma tal superabundância de amor” (NIETZSCHE, 2003, p. 13) e lança-se a ela sem recorrer à voz da Gewissen (consciência), egoisticamente, valor orgânico (vivo), o amor em exagero, amor infinito pelo instante, pelo privilégio de ser neste instante; esse amor sem Gewissen (consciência) torna autêntica e original sua ação (atitude) - escolha, pois quer que realize-se o que tem de ser agora, conforme a seguinte passagem: o homem orgânico (vivo) e feliz “esquece a maior parte das coisas para fazer uma apenas” (NIETZSCHE, 2003, p. 13); esta passagem ecoa como o canto de Zaratustra: “amo o que não quer ter virtudes demais. Uma virtude é mais que duas virtudes” (NIETZSCHE, 2005, p. 14), ou ainda, “amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois é assim que, por amor da sua virtude, quer ao mesmo tempo continuar a viver e deixar de viver” (NIETZSCHE, 2005, p. 14).
Viver a-historicamente, o que talvez pareça absurdo, não é nada mais do que viver “a ponto de perder a consciência de si”, mais ainda, perder a Gewissen (consciência) da Gewissen (consciência), dito a favor, esquecer e viver. Sendo no a-histórico o esquecer e o viver, aqui também, ou, justamente aqui é que surge o histórico enquanto acontecimento, ainda um simples acontecimento cego que será racionalizado e embalsamado para o vislumbre do homem histórico.
Cria-se uma antinomia, um homem a-histórico (feliz, portanto) em seu agir com amor e por amor propicia o nascimento de um homem ingênuo, um homem histórico, que por definição tem esperança, que vive na máxima esquemática de que o “olhar para o passado os impele para o futuro”; agora o passado garantirá vida, pois eu o garantirei!!
Alma pródiga tem o homem a-histórico, sua atividade gerou o homem histórico, como também o homem supra-histórico, o homem sem esperança, aquele que vê 'tudo': passado, presente e futuro como iguais. Enquanto o ingênuo irrita-nos por 'viver' das quinquilharias passadas, o supra-histórico desgosta-nos por ser em toda ação (atitude) enjoado e sábio, este homem transborda incomparável sabedoria e se alegra disso, mas não vive, enquanto aqui a ignorância é viga mestra, sobra 'vida', pois aqui assimila-se e digere apenas a parte da história que venha estimular e intensificar a vida.
A História possibilita ao sábio ver as injustiças, as ilusões, as profanidades e as paixões, com isso tudo, ele se curva e caminha levando consigo o fardo histórico e, isso crê ser extremamente necessário para comprovar e exibir sua sabedoria, todavia esse ‘todo’ em nada serve para o vivente comum e esse quer viver, não ser sábio; logo, para que tanta História?
Estão em cena as personagens do ensaio: o a-histórico, o histórico e o supra-histórico, o roteiro é a própria História, a peça visa encontrar uma personagem que tenha como enredo servir ao bem-estar do homem.
Afinal de contas qual é a personagem que traz vida? Não pode ser nem o descaso nem a arrogância do supra-histórico, como também não pode ser o 'esquecimento da vida' do a-histórico.
Acalmem-se, vossos ouvidos ouviram apenas o que estava carente ou com excesso de história, agora Nietzsche falará, por esta pena, do que está na História. Apresentará para tanto três concepções de história, duas perigosas sempre e uma que se bem utilizada servirá à vida, para que a vida não seja apenas nojo ou esquecimento: às definições!
Primeiro perigo. A História Monumental – nesta perspectiva o vivente tem como característica a ação e a aspiração de que todo passado, o mais passado possível, lhe dita como ser, entendido como viver, existir, agir.
Segundo perigo. A História Antiquária – nesta perspectiva o vivente caracteriza-se pela preservação e veneração do que acabou de ser, ele sempre pergunta: por que já se foi?
Prevenir-se desses perigos?! Somente com a utilização da História Crítica, esta que percebe o sofrimento e o aprisionamento e lutará contra essas outras atitudes his-tó-ri-cas!
Mais detalhes desses perigos serão necessários para a prevenção e exaltação da vida.
A história monumental é uma constante tentativa de resgatar a humanidade, a tempos perdida; seu lema: foi possível uma vez, será possível algum dia (NIETZSCHE, 2003, p. 20) esse é o eterno retorno, melhor dizendo, o desejo do eterno retorno. É uma história baseada nas brincadeiras infantis chamada de siga-o-mestre. Nietzsche chama essa concepção de ficção mítica, esquece-se o todo e apega-se a detalhes e adornos e lamenta-se até ou para além da morte.
O homem que vive acordado com a história monumental sempre se esconde, seduz e ilude; faz de si e do homem corajoso um pusilânime inativo; mascara-se, construiu e mantém a peso de ouro o imperativo: “deixem os mortos enterrarem os vivos” (NIETZSCHE, 2003, p. 24), apoderam-se dos viventes que não dispõe daquela força plástica e induzem-nos ao princípio: “a criação de algo novo, depende do passado” (NIETZSCHE, 2003, p; 24), acrescenta-se, sempre; passado resguardado pela história monumental, diria Nietzsche.
Tão perigoso como estar rodeado de zumbis é venerar o familiar, sem viver; querer o antigo, cuidando do mesmo como se esse originário devesse ser posto em uma redoma, pois o novo, o que está por vir, só acontecerá mediante a preservação, veneração, afeto e fidelidade a essa origem: a esse defender, eles dizem servir à vida.
Ecoa o lamento do homem antiquário:
- “Aqui era possível viver, [...] pois viver era permitido!” (NIETZSCHE, 2003, p. 26. grifo do autor).
O lamento torna-se profecia:
- “Aqui será possível viver, pois somos teimosos e não seremos derrubados da noite para o dia!” (NIETZSCHE, 2003, p. 26. grifo do autor).
Este homem sente, percebe,
usando um conceito familiar, toma Gewissen
(consciência) de todo o passado, para dizer o quanto e o como as coisas
eram... Esse homem não deixa ninguém livre porque sente que “o passado sofre enquanto a história serve à
vida e é dominada por pulsões vitais” (NIETZSCHE, 2003, 27).
Ultrapassando esses homens, o homem prenunciado por Zaratustra se delineia no horizonte, um homem que vive e é exaltado pelas palavras do próprio Nietzsche:
- “Amo aqueles que não precisam procurar além das estrelas uma razão...” (NIETZSCHE, 2005, p. 14) para viver, complete-se.
O homem antiquário assemelha-se ao animal que usa um tapa-olho, com o objetivo de não se deixar levar pela amplitude que a visão pode atingir. Esse homem, portanto, vê pouco e fragmentariamente, por isso e devido a essa limitação assimila 'tudo' como igual e importante, porque crê que o que vê é a totalidade dos fatos.
Quem precisa do novo? Com o dedo em riste pergunta e lamenta:
No meu tempo..., isso sim valia
a pena, essa sim era uma coisa boa de se fazer, nossa como aquilo era bom... e
assim a nostalgia rege o monólogo desse homem que não vê sentido algum para a
necessidade do novo, ele tem o que a sociedade quer, quer dizer, EXPERIÊNCIA,
sim; é um homem que armazenou, dito de maneira conceitual, retém
Nietszche sente o odor mofo desse homem, um ser mumificado, esperançoso, mas degenerativo, o presente (entenda-se vida) não lhe entusiasma, quer o antigo, o que é imortal, quer a conservação da vida (passada) e se perde por não gerar a vida.
Não percam de vista o objetivo da discussão. A partir do binômio consciência-memória, chega-se à concepção de História, essa servindo-se do binômio contraditoriamente, esqueceu a vida e, ironicamente é o que aqui se quer buscar, ou seja, na “faculdade do esquecimento” uma atitude que possibilite viver, com o perdão da redundância, a vida.
Destruir esse modos históricos ou dominá-los à serviço da vida, eis o porquê da história crítica, que não se importará em sacrificar-se para que ainda viva-se ao menos um instante.
Sua máxima é: “tudo que surge merece perecer”
(NIETZSCHE, 2003 p. 30).
Ouvir essa máxima causa pavor e calafrio nos homens monumentais e antiquários, simplesmente porque quer 'vida presente', seu intento não está no passado, seu objetivo está no viver e para isso há de se esquecer o que fez, do e o quê gostou, 'o mundo começa agora', e o homem que assim deseja[8] viver necessitará de muita força, para assim viver terá que por sua vida frente ao perecimento, seu instante de vida pode ser seu instante de morte, já prenunciando as literaturas que virão para análise.
- Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Novamente estas questões, as quais já se iam esquecidas no decurso do ensaio, espera-se; Eis o axioma da vida: esquecimento versus aniquilação do esquecimento (NIETZSCHE, 2003, p. 30) a vida é uma existência que a história crítica entende como injusta, por conseguinte perecer é o mínimo, ela vê tudo como resultado das gerações anteriores, ou seja, frutos de aberrações, paixões, erros e crimes, elementos que formam o homem, não se foge disto.
Mas é necessário o enfrentamento, a luta do que foi contra o que está sendo, luta que tem como meta ao vencer implantar um novo hábito, manifestar um outro instinto e até, dirá Nietzsche, uma nova natureza que sobreponha-se à primeira, aquela constituída pelos modos históricos: antiquário e monumental.
O que a história crítica pretende é romper com o esquema da história para a contemplação e/ou história para o saber (passado), ela quer servir à vida, entretanto, viver só é possível ao homem que tenha uma 'força plástica' extraordinária, do contrário será mais um modelo de história que trará mais excesso do que vida, igualando-se aos já citados modelos históricos, que esta pretende rivalizar.
Até aqui se tem o que servirá ao ensaio; por conseguinte apenas há de se dizer que Nietzsche ainda falará de uma história como ciência, coisa do homem moderno. Todavia, esse modelo não se difere das concepções antes esboçada, visto que a sua máxima é: “fiat veritas pereat vita” (que se faça a verdade e que pereça a vida) (NIETZSCHE, 2003, p. 32), como dito, não se serve à vida.
Não é o caso de um aristotelismo, contudo o vício do excesso é o que compromete a história em servir à vida. Tanto não é um aristotelismo que o vício da falta será empregado aqui como um acessório a serviço da vida, explicando: o a-histórico servirá para viver o instante, que é sempre vida.
Alguém se lembra do que foi dito
no parágrafo 69 deste ensaio? Que seja! Naquele momento falava-se da concepção
de Vergessenheit (esquecimento),
melhor, o saber esquecer e o saber
lembrar no tempo certo, digo isso porque não quero deixar
Viver, mesmo no instante de morte: esse é o desafio do homem.
Esquecer-afirmar: eis o que a vida pede; do contrário todos seremos arruinados pela história (NIETZSCHE, 2003, p. 38).
Demais a mais só resta o silêncio.
BIBLIOGRAFIA:
NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra. Trad. Heloísa da Graça Burati. São Paulo: Rideel, 2005.
______________. Genealogia da Moral: uma polêmica. Trad. Paulo C. Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
______________. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
______________. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
______________. Acerca da verdade e da mentira em um sentido extramoral. Trad. Helga Hook Qaudrado. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1997.
[1]
Veja nota 85 (Nietzsche,
2005, 152)
[2]O processo é assim descrito por Nietzsche:“grava-se algo a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”(Genealogia da Moral, 50.)
[3]Nietzsche apresenta a relação do verbo com a criança: “Então ela aprende a entender a expressão 'foi', a senha através da qual a luta, o sofrimento e o enfado se aproximam do homem para lembrá-lo o que é no fundo a sua existência – um imperfectum que nunca pode ser acabado” (Genealogia, 1998, p. 8).
[4]Cf. PESSOA,F. Ficções do interlúdio, 2002.
[5]Sentimento que propicia: "Fechar
temporariamente as portas e janelas da consciência; permanecer imperturbado
pelo barulho e a luta de nosso submundo de órgãos serviçais a cooperar e
divergir; um pouco de sossego, um pouco de tabula rasa da consciência, para que
novamente haja lugar para o novo, sobretudo para as funções e funcionários mais
nobres, para o reger, prever, predeterminar (pois nosso organismo é disposto
hierarquicamente) - eis a utilidade do esquecimento, ativo, como disse, espécie
de guardião da porta, de zelador da ordem psíquica, da paz, da etiqueta: com o
que logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança,
orgulho, presente, sem o esquecimento (NIETZSCHE, 1998, pp. 47-48).
[6]Isso é o que defino como uma
educação para o (esquecimento) Vergessenheit.
[7]Esse horizonte, sendo pontual (limitado - invólucro), diz Nietzsche, possibilitará, por cálculos, comparação, reflexão e etc., tornar o homem, homem.
[8]
Tencionamos com o verbo
salientar a atitude de se educar para o esquecimento.
[9] idem.